quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Utz, Bruce Chatwin


Bruce Chatwin

Utz é um pequeno romance que tem como protagonista um intelectual da pequena nobreza da antiga Checoslováquia, cujo nome dá o título ao livro.
Karl Utz é-nos retratado como um cavalheiro, esteta e apaixonado por porcelana. Vive num pequeno apartamento em Praga, perfeitamente conformado com a perda do castelo e demais riquezas da sua família, cuidando da sua preciosa colecção de porcelanas. Esta colecção é, aliás, o único interesse da sua vida, sendo à volta dela que tudo o demais gravita.
            Quando Chatwin escreveu este livro estava já muito doente (faleceu com apenas 49 anos). Ao New York Times disse ter escrito o livro debilitado em consequência de uma infecção que apanhou durante uma viagem à China. O que estava longe da verdade, pois faleceu vítima de SIDA.  
            Chatwin foi ele próprio uma personagem digna de um romance. Disso indicativo é o facto da sua biografia, escrita por Nicholas Shakespeare, ter demorado oito anos a escrever e ter mais de quinhentas páginas. Apaixonado por obras de arte e viajante inveterado, contam-se sobre ele vários episódios curiosos. Um deles é o da sua partida inesperada em viagem deixando ao seu empregador um singelo bilhete onde se lia “Fui para a Patagónia.”
            Dessa viagem nasceu Na Patagónia, o seu primeiro livro. A sua obra não é vasta, tendo no conjunto de textos reunidos sob o título Anatomia da Errância o seu mais alto exemplo.
           Chatwin é um nome maior da literatura de viagens, mas claramente transcendeu esse género. Utz é disso exemplo. A meu ver, não estamos perante um romance sobre viagens, mas antes sobre os muros que construímos à nossa volta para evitar a realidade com que não queremos lidar.
            Escrito de uma forma leve e recheada de detalhes eruditos, o livro foca um tema bem pesado - o que vale o gosto pelo belo perante uma sociedade marcada pelo totalitarismo?
            O próprio Utz é um anti-herói. Aproveita momentos de tensão (a queda da Bolsa em 1929, a noite de cristal em Berlim e a ascensão do partido comunista na URSS) para comprar peças de arte a um preço para si mais agradável e é, de algum modo conivente com o regime checoslovaco (o preço a pagar para manter a sua colecção de porcelanas). Alguns episódios esporádicos de boa consciência não afastam esta impressão geral e são mesmo algo incoerentes na construção da personagem.
A dúvida persiste no fim do livro: Utz é um perfeito cavalheiro resistindo de forma passiva mas convicta ao regime do seu país ou é antes um exemplo de alienação através da arte, apenas preocupado com o seu conforto pessoal?
            Cada leitor terá a sua resposta. Mas qualquer que ela seja não belisca o mérito de Chatwin, não só quanto ao tom que imprimiu ao livro, mas também na construção desta personagem enigmática e inesquecível.

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