segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A estante dos outros (III)

“No mountain high enough no river deep enough”. Se tivesse de escolher um lema para ilustrar a capacidade de leitura do meu amigo João, aquelas palavras captariam-na na perfeição. Como se vê das respostas ao questionário pouca coisa o assusta. Apesar de jovem (trinta e cinco anos) já ultrapassou alguns dos mais árduos obstáculos para qualquer leitor do mundo ocidental (basta ter em atenção que já leu efectivamente os sete volumes que compõem Em busca do tempo perdido, Guerra e Paz e A montanha mágica). Das respostas que dá ao questionário retira-se a forma rigorosa como tem abordado os seus projectos de leitura. No entanto, tenho de dizer que nos últimos tempos, anda mais flexível. Aliás, um dia destes vai finalmente mergulhar nesse clássico que é Orgulho e Preconceito.  E, com o fair-play que o caracteriza, reconhecer o que tem andado a perder.
            Obrigada pela disponibilidade João.



A estante do João, fotografada pelo próprio

1. Qual é a tua primeira recordação literária?

A primeira recordação remonta à 3ª classe. Todos os dias, antes do início da aula propriamente dita, a professora lia um capítulo de um livro. Começou com “O Romance da Raposa”, do Aquilino, depois leu “O Meu Pé de Laranja Lima”, do José Mauro de Vasconcelos. Mas aquele que, verdadeiramente, me entusiasmou foi o que leu a seguir: o primeiro título da colecção “Os Cinco”, da Enid Blyton. Rapidamente dei por mim a pedir à professora que me deixasse ir adiantando a leitura do livro nos intervalos. Seguiu-se a aquisição sucessiva de todos os volumes, que li avidamente. Estou firmemente convicto de que foi assim que me apaixonei pelos livros e pela leitura.


2. Indica três livros que te tenham marcado e porquê.

A resposta é difícil, pois ao longo de quase trinta anos que já levo de leitura, muitos livros me marcaram, quando os li. Todavia, muitas vezes essa “marca” ficou a dever-se não tanto ao seu mérito literário intrínseco, mas mais à minha idade e/ou maturidade literária. Nessa medida, para além da já referida Enid Blyton, não posso deixar de referir os romances de Alexandre Dumas, Júlio Verne, Victor Hugo e Tolkien como marcos incontornáveis na história das minhas leituras e que, seguramente, deixaram um cunho decisivo na estruturação das minhas preferências literárias.
Posto isto, aqui ficam três livros que me marcaram:

O conjunto dos sete romances que compõem “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust – Acima de tudo por terem pulverizado completamente o meu paradigma de romance, essencialmente ao nível da estrutura narrativa e da própria arquitectura interna do todo. Nunca tinha lido nada sequer parecido. O que mais me fascinou foi o modo como o livro modifica completamente a ideia da passagem do tempo físico, superando essa inevitabilidade através de uma espécie de materialização das recordações. Quando se chega ao fim percebe-se que há uma circularidade desconcertante, na medida em que toda a obra parece apenas a preparação para a sua própria escrita. Um outro aspecto me fascinou: a perfeita noção de que aquela leitura foi apenas a primeira e que uma segunda (ou mais, assim haja tempo!) permitirá surpreender aspectos ou ideias que ficaram por desvendar.  

“O Castelo”, de Kafka – Mais do que em “O Processo” (que penso ter lido cedo de mais e que, por isso, vou ter de reler), foi “O Castelo” o livro de Kafka que mais me impressionou. Pelo ambiente verdadeiramente opressor que nos consegue instilar; pelo confronto com o absurdo, ou melhor, pela frustrante sensação de impotência do Homem perante uma impossibilidade decorrente de causas insondáveis, destituída de qualquer razão de ser minimamente perceptível. Não é um livro agradável de ler, longe disso. Mas é verdadeiramente marcante.

“A Montanha Mágica”, de Thomas Mann – Porventura o livro que mais me estimulou intelectualmente até à data. Este livro contém o mundo inteiro. Todos os aspectos da natureza humana nele encontram o seu lugar: a cultura, a ciência, a religião, o amor, a doença, a busca do conhecimento e, a final, de um sentido para a vida. É um livro extremamente exigente, em que a imensa erudição do autor implica um enorme esforço do leitor para o acompanhar. Deste modo, é uma obra que não pode ser lida passivamente. Todavia, quanto maior o empenho colocado na sua leitura e na reflexão das temáticas que aborda, maior o prazer que dele se retira. Como o próprio autor recomendou, deve ser lido com tempo e mais do que uma vez, na medida em que foi escrito de modo a que as suas múltiplas dimensões apenas sejam apreensíveis através de leituras repetidas. E duvido que, quem o leia uma vez, não o queira fazer novamente.

Não posso deixar de referir também ciclo de 20 romances “Os Rougon-Macquart – História Natural e Social de uma Família sob o II Império”, de Émile Zola, que é a mais ambiciosa empresa de leitura que, até ao momento, empreendi. É avassalador. Todavia, não incluí nesta categoria pois, em bom rigor, ainda estou a ler o último dos 20 romances.


3. Tens um hábito ou ritual de leitura?

Quanto à actividade de ler propriamente dita, adoptei, há cerca de dois anos, o hábito de ler sentado à secretária, à luz de candeeiro. Em regra à noite. Sempre em silêncio, sem música. Antes lia na cama ou em sofá (o que ainda faço, mas residualmente, especialmente quando não estou em minha casa), mas percebi que isso dificulta a tomada de notas ou apontamentos e, nos dias em que estou mais cansado, prejudica a capacidade de manter a concentração.
Quanto aos hábitos de leitura, entendidos como a forma de escolha do que vou ler em cada momento, tenho um método que sigo desde 1993. Como sempre comprei livros a um ritmo superior ao da sua leitura, decidi pegar em todos os que tinha para ler e organizar uma lista sequencial. Assim, quando termino um, começo o que se lhe segue na lista. A primeira lista durou até final de 2001, momento em que, apesar de conter ainda livros não lidos, a abandonei. O passar do tempo e a natural alteração dos meus gostos literários impôs tal solução. Assim, em Maio de 2001 organizei uma nova lista, que ainda hoje vou seguindo. Como forma de temperar a rigidez deste método, comecei a intercalar a leitura sequencial dos livros da lista com a leitura de outros que me interessam e que adquiri posteriormente.
Pode parecer um esquema que obsta à leitura daquilo que, em cada momento, me possa apetecer. Mas tem as grandes vantagens de: i) disciplinar a leitura e impedir a dispersão em virtude do simples estado de espírito do momento; ii) de me impor a leitura de obras que, a não ser assim, seriam deixadas para mais tarde (mais tarde esse que se podia ir perpetuando) e iii) de impedir a indecisão sobre o que ler em cada momento.


4. Qual o livro que não lerias nem que te pagassem o teu peso em ouro?

Ao preço a que está o ouro neste momento, dificilmente existiria algum que não lesse. Mas posso indicar nomes como Paulo Coelho, Alexandra Solnado, aquela autora dos livros sobre vampiros, aqueles livros que são vendidos envolvidos em tule cor-de-rosa e com laçarotes, biografias de “socialites”, concorrentes a reality-shows, jogadores de futebol, etc.

5. Se tivesses três meses de folga, sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias para ler?


Não sei se três meses seriam suficientes, mas aqui ficam os meus projectos:

Ilíada (Homero) – Odisseia (Homero) – Retrato do Artista Enquanto Jovem (Joyce) – Ulysses (Joyce) – por esta ordem

Fausto I e II (Goethe) – Doutor Fausto (Thomas Mann) – por esta ordem

A Comédia Humana (Balzac)

A Divina Comédia (Dante)

6. O que estás a ler agora?

“O Doutor Pascal”: o último dos 20 romances que compõem o ciclo “Os Rougon-Macquart – História Natural e Social de uma Família sob o II Império”, de Émile Zola

2 comentários:

  1. Não me vou comentar a mim próprio, mas apenas salientar dois pontos que esta série "A estante dos outros" me começa a suscitar.
    Um primeiro no sentido de que se começa a desenhar uma certa linha de identidade entre as referências literárias dos participantes. Os livros mais marcantes são, tendencialmente, clássicos, neste conceito compreendendo autores europeus (incluo russos) do século XIX.
    Um segundo, verificando a – talvez preocupante – ausência de escritores portugueses deste quadro.
    Veremos se as próximas “estantes” confirmam estas tendências. As conclusões serão, seguramente, extraídas, a final, pela autora do blog...!

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  2. que estante ma-ra-vi-lho-sa!! adoraria ter uma lindona assim, embutida e tudo o mais

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