sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Suave Milagre, Eça de Queirós

A adoração do pastores, Joardens

          
A primeira vez que li este texto foi num antigo livro de instrução primária que existia em casa dos meus Pais. Publicava-se apenas um excerto, não o conto completo. Na altura, a singeleza da entrada de Jesus impressionou-me muito.  
            O texto completo só o li anos mais tarde. Por essa altura já conhecia bem o outro Eça de Queirós. O da observação implacável da sociedade portuguesa e da ironia corrosiva. Há quem diga que excessiva, mesmo.
            Este conto, Suave Milagre, tem muito da escrita queirosiana. O estilo cheio de detalhes, a crítica aos poderosos. Mas tem também este final tocante pela sua simplicidade.
            Não é verdadeiramente um conto de Natal. Mas tem-me vindo à cabeça por estes dias. E, por isso, fica aqui este excerto com votos de Boas Festas a todos os que frequentam este blogue.

           “ (…) A tarde caía. O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto, a mãe mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males, ainda mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:
        - Oh filho! e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, à procura do rabi da Galileia! Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, desde Chorazim até ao país de Moab. Sétimo é forte e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria o rabi tão desejado, por quem os ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?
        A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
        - Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
        E a mãe, em soluços:
        - Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse … Nem mesmo os ricos e os fortes o encontraram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
        De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
        - Mãe, eu queria ver Jesus …
        E logo, abrindo devagar a porta, sorrindo, Jesus disse à criança:
        - Aqui estou.”

                                     Excerto de  Suave Milagre, Eça de Queirós

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