sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A estante dos outros (IV)

          

      Maria Rosa é a minha entrevistada de hoje. Formada em Direito e com oitenta e três anos, é, desde que a conheci, um exemplo de leitura crítica. As respostas que se seguem mostram-no bem. E mostram ainda o que é ser um leitor intrépido, a quem, nem os clássicos, nem os temas científicos actuais atemorizam. E sempre com sentido de humor!

            Qual a sua primeira recordação literária?
Julgo que "As Diabruras de Sofia" e "As Meninas Exemplares", da Condessa de Ségur, mas não foram estes seguramente os primeiros livros que li.
            Indique três livros que a marcaram e porquê.
"Anna Karénine", de Léon Tolstoi, "A la Recherche du Temps Perdu", de Marcel Proust e "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Marques, são os que me vêm com mais força à memória. Em "Anna Karénine" terá sido a diversidade das personagens secundárias que se entrecruzam com as duas narrativas principais. Foram como que uma iniciação à complexidade e ao misticismo da velha Rússia. Em "A la Recherche", creio que fiquei atraída pelos labirintos da memória ("O universo numa chávena de chá"), pelo estilo zigzagueante, que a princípio afasta e depois seduz, e pela galeria infindável das personagens. "Cem Anos de Solidão" foi o meu primeiro contacto com o realismo fantástico da América do Sul, de que ainda hoje pouco conheço.
            Tem algum hábito ou ritual de leitura?
Não tenho. Aprecio a minha velha cadeira, num lugar com alguma vista para o exterior. Quando era nova, gostava de ler na cama. Agora já não.
            Que livro não leria, nem que lhe pagassem o seu preço em ouro?
Talvez o "Mein Kampf", de Hitler.
            Se tivesse três meses sem preocupações de qualquer natureza, que livro escolheria?
Para esse tempo abençoado, julgo que escolheria o "Ulisses", de James Joyce, acompanhado de um bom dicionário de inglês. Mas, para aliviar a cabeça, apetecer-me-ia ter à mão algum livrinho da série dos "Peanuts", para reler as aventuras/desventuras do Charlie Brown e seus amigos.
            O que está a ler agora?
Estou a reler "Anna Karenine" numa versão francesa, que julgo ser muito boa, e que tem pequenas notas de rodapé sobre termos russos que pedem uma breve explicação. Mas estou também a ler "O Património Genético Português. A história humana preservada nos genes", de Luísa Pereira e Filipa M. Ribeiro. Sempre me interessou a aventura humana: de onde viemos? quando? por onde peregrinámos? como nos diferenciámos tanto? Terá havido uma Eva mitocondrial? Mas a Genética e a Pré-História são demasiado espinhosas para a minha cabeça!

1 comentário:

  1. Parece cimentar-se o domínio dos autores europeus do século XIX, embora o GGM faça uma (surpreendente?) reaparição.

    Confirma-se também que o Ulysses parece ser um desafio que não se aceita de ânimo leve...

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