sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Montaigne dixit



Michel de Montaigne

A Universidade de Liverpool publicou um estudo segundo o qual ler poesia e autores clássicos é benéfico para o cérebro, estimulando-o e podendo mesmo ser mais eficaz do que os livros de auto-ajuda (ler aqui). Bom, por uma vez posso gabar-me de me ter antecipado a estudos científicos. Sem saber sequer que estavam a ser feitos, já tinha escrito aqui mesmo ser preferível e altamente vantajoso eliminar os intermediários e ir directamente à fonte (aqui ).
Hoje, em homenagem a esse estudo e sobretudo a Montaigne, um dos meus escritores de eleição, deixo este trecho dos seus Ensaios:
“Comprazer-se excessivamente com o que se é, cair num irreflectido amor-próprio constitui, em minha opinião, a substância desse vício da presunção. O melhor remédio para a sua cura é fazer exactamente o contrário do que a este respeito receitam aquele que, ao proibirem o falar de si, por conseguinte mais ainda proíbem o pensar acerca de si. O orgulho jaz no pensamento. A língua só pode desempenhar um papel irrelevante. Parece-lhes que ocupar-se de si é comprazer-se consigo e que frequentar-se e ter trato consigo próprio é ter demasiada auto-estima. Pode ser, mas tal excesso origina-se apenas naqueles que não se examinam senão superficialmente, que só olham para si mesmos após tratarem dos seus negócios, que chamam desvario e ociosidade a ocupar-se de si mesmo e que dizem que é fazer castelos no ar enriquecer o espírito e atender à formação do carácter, julgando-se coisa alheia e estranha a si mesmos.
           Se alguém se inebria com o seu saber ao olhar para baixo de si, que volte a olhar para cima, rumo aos séculos passados, e baixará os cornos ao encontrar aí tantos milhares de espíritos que o calcam aos pés. Se ele forma alguma ligeira presunção acerca do seu valor, que se recorde das vidas dos dois Cipiões e dos incontáveis exércitos e povos que o deixam muito para trás. Nenhuma particular qualidade dará motivo de orgulho àquele que ao mesmo tempo tiver em conta os muitos traços de imperfeição e debilidade que em si há e, enfim, a nulidade da condição humana.
            Porque Sócrates foi o único a compreender acertadamente o preceito do seu Deus, o de conhecer-se a si mesmo, e através de tal estudo, ter chegado a desprezar-se, só ele foi julgado digno do sobrenome de “sábio”. Quem assim se conhecer, que tenha a audácia de, pela sua própria boca, o dar a conhecer”.
            Um clássico que se inspira num outro clássico, num exercício de modéstia e capacidade de raciocínio sobre o auto-conhecimento e a conveniência de não nos levarmos demasiado a sério.

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