quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A poem a day keeps the doctor away




Desert sand no71936

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Crónica de uma paixão confessável

Convidei a minha amiga Ana (duas vezes blogger, pois, para além do blogue que identifica abaixo é também a feliz proprietária do Pó de Prata sobre as Nuvens) a escrever sobre uma sua paixão confessável: a literatura infanto-juvenil. Aqui está o resultado. Para além do texto, simultaneamente rigoroso e intimista, é também dela a imagem. Uma rapariga cheia de talentos!
Obrigada Ana!




- Conta o resto da história, e não te preocupes. Eu sei que as coisas mágicas têm sempre um lado triste, mas é por isso que são bonitas. Porque como têm tristeza e alegria, nós nelas podemos aprender a verdade da vida (Pedro Sena-Lino, in "A Árvore que não sabia sentir", Booklândia, Maio 2012).
Amo os livros desde que me recordo de existir.
Primeiro, tê-los-ei, tão-só, folheado, absorta nas suas ilustrações, mas cedo formulei o desejo de saber lê-los e conhecer todas as estórias que guardam dentro de si e anseiam por partilhar. Na verdade, fui criada com um primo que tem mais dois anos do que eu, o qual me deixou sedenta de conhecimento logo que entrou para a, então, primeira classe.
Lembro-me de passar horas serenas e prazeirosas a ler as estórias de Anita, d' O Polegarzinho, d' O Patinho Feio, d' A Vendedora de Fósforos... E de me emocionar, igualmente, a cada vez que as relia.
Os Natais e aniversários tinham um gosto especial quando traziam consigo livros das colecções que, em cada ano, estava a fazer. Recordo-me particularmente do dia do meu 13.º aniversário, data em que fui acordada com um beijo ternurento da minha mãe e um pacote muito especial pousado em cima de mim, recheado com mais de metade dos volumes da colecção Uma Aventura, das portuguesas Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Não negando estar em causa a leitura algo tardia daquela obra, a verdade é que a mesma passara a ser uma referência no panorama da literatura juvenil em Portugal, e eu não quis deixar de conhecê-la.
Bem antes disso, lera toda a colecção d' O Colégio das Quatro Torres, d' As Gémeas no Colégio de Santa Clara e d' Os Cinco, todos da genial Enid Blyton. Não raras vezes, imaginava viver as aventuras das personagens que idolatrava. Durante as férias, desfrutando da visão do luar derramado sobre a baía de Sesimbra, imaginava que as luzes intermitentes que se viam no mar traduziam a sinaléctica própria de raptores ou contrabandistas, cujos planos malévolos eu, coadjuvada por amigos de grande coragem, ajudaria a aniquilar.
Aos catorze anos, apaixonei-me pela obra de Alice Vieira, dedicando-me febrilmente à leitura d' Os Olhos de Ana Marta, Chocolate à Chuva, Viagem à Roda do Meu Nome, Rosa, Minha Irmã Rosa, e tantos outros, que, estou certa, ainda fazem parte do imaginário de muitos dos leitores da minha geração. A designação de um dos meus blogues, Lote 1 - 1.º dto, foi, precisamente, inspirada no título de um dos livros desta grande escritora: Lote 12, 2.º frente.
Como uma adolescente absolutamente normal, voltei a apaixonar-me muitas e muitas vezes. Mulherzinhas, de Louise May Alcott. A Menina Insuportável, da Condessa de Ségur. Le Petit Prince, de Antoine de Saint-Exupéry, este, ainda, uma referência nos meus dias.
Apartada, durante alguns anos, da literatura infanto-juvenil, reencontrei-a de uma forma algo curiosa: através do fenómeno mundial Harry Potter. Talvez, na altura, estivesse demasiado cansada de "muggles", pelo que me voltei para a magia!
Depois de ter sido mãe, assumi em pleno a missão de procurar incutir, nos meus filhos, o gosto pela literatura e, admito, eu própria me deleito com as leituras que faço para eles. O que me agrada, em particular, nas estórias para crianças e jovens é a emotividade que, em geral, expressam, bem como o facto de alertarem o leitor para o substrato ético que deve ser cultivado no ser humano.
Neste meu propósito de conduzir os petizes pelos caminhos das palavras, tenho descoberto, em conjunto com eles, obras ternas e enriquecedoras, de entre as quais, sem qualquer pretensão de exaustão, destaco: Adivinha o Quanto Eu Gosto de Ti, de Sam McBratney, A Grande Fábrica das Palavras, de Agnès de Lestrade, A Gigantesca Pequena Coisa, de Beatrice Alemagna, A Mãe que Chovia, de José Luís Peixoto e O Primeiro Passo, de Orianne Lallemand.
Ler, ler, ler sempre. Ler sempre mais. E aprender, na magia dos livros, a verdade da vida.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

As atribulações de um chinês na China, Júlio Verne


Júlio Verne 

As atribulações de um chinês na China é um daqueles livros que li em miúda a que volto periodicamente, por ser garantia de boa disposição. Foi escrito por Júlio Verne no final do século XIX. Conta a história de Kin Fo, um jovem chinês rico entendiado com a vida que leva decidido a morrer. Incapaz de se suicidar, acaba por fazer um acordo com o seu amigo Wang, bastante mais velho, estabelecendo um prazo para que este o mate. E como o assassinato consensual é coisa difícil sempre de explicar às autoridades, assinam um documento comprovativo do acordo firmado.
Sucedem-se peripécias pessoais e patrimoniais que levam Kin-Fo a descobrir o gosto de viver, concluindo já não ter interesse no pacto feito com Wang. O problema, porém, é que não tem como informar este de que mudou de ideias.
Júlio Verne foi um dos mais prolíficos autores da literatura ocidental, com uma imaginação prodigiosa que o fez imaginar vida humana nas profundezas do mar, viagens ao centro do mundo e aventuras nos céus. A sua fantasia levou-o a escrever sobre locais que nunca conheceu com um imenso realismo. Teve ainda ideias maravilhosas como Dois anos de férias, título de outro dos seus livros.
As atribulações de um chinês na China é um livro que dá gosto ler em qualquer idade. Pela riqueza das descrições, pela dinâmica da acção e pelo modo como as personagens se vão desenvolvendo.
Numa visita recente a uma livraria reparei que acabou de ser reeditado em formato de edição de bolso (mas com boa letra, diga-se). É uma boa opção de leitura (ou releitura), demonstrando que um livro pode ser leve, divertido e inteligente, não se confundindo a “leveza” da história com o recurso em catadupa a lugares-comuns que abundam em certa literatura dita “light”.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Mortalidade, Christopher Hitchens

Chistopher Hitchens nasceu a 13 de Abril de 1949 em Inglaterra tendo falecido a 15 de Dezembro de 2011 nos Estados Unidos da América. Foi escritor, colunista e crítico literário em diversas publicações anglo-saxónicas. Era também um argumentador nato e um especialista em desfazer ideias feitas. O seu livro mais conhecido é Deus não é Grande: como a religião envenena tudo. Contudo, teve outras obras que causaram celeuma, designadamente The missionary position: Mother Theresa in Theory and Practice, onde teceu a sua leitura sobre essa figura da Igreja do século XX.  Mortalidade reúne um conjunto de texto publicados na Vanity Fair sobre o cancro que o afectou e que haveria de o conduzir à morte. São texto breves, mas intensos.
 Uma vez que Hitchens viveu pela palavra escrita e falada, a limpidez do texto, a clareza das ideias e a precisão das referências literárias de que se socorre não surpreendem. Na verdade, o que me marcou neste livro foi a humanidade que se  desprende de cada palavra. Hitchens não nos fala ex cathedra. Ao contrário, não abdica de ser um de nós. E de tal forma isso é conseguido que em determinado momentos quase nos vemos ao seu lado na Tumorlândia (como chama à terra dos doentes). Acompanhamos o desenrolar da doença e todos os episódios típicos: o encontro com pessoas que conhecem tratamentos não convencionais milagrosos, o repetir de histórias sobre amigos e conhecidos que tiveram o mesmo tipo de doença, a gradual percepção de que o desfecho vai ser apenas um. Hitchens apresenta-nos alguns episódios com humor. Não um humor excessivo ou amargo, mas antes natural e do qual acabamos por partilhar. Um desses momentos é quando escreve sobre a reacção de tantas pessoas suas desconhecidas que o contactaram para lhe assegurarem que iam rezar por ele (ou para lhe dizer o contrário). Ou quando propõe um manual de etiqueta para lidar com pessoas a sofrer de cancro. Outro ainda, é quando põe de lado a velha máxima de Nietzche “o que não nos mata torna-nos mais fortes”. Quanto a este ponto, já estava na altura de alguém demonstrar que essa frase é uma treta. E Hitchens fá-lo.
Há um ternura que se desprende destes textos que em nada se confunde com sentimentalismo. Há uma coragem sem basófias. Também por isso torna-se difícil acompanhar o relato nos momentos em que nos dá conta de que não vale a pena submeter-se sequer a tratamentos experimentais. E sobretudo no último capítulo que já não corresponde a texto corrido, mas antes a tópicos ou ideias que certamente já não teve oportunidade de desenvolver.
Com seriedade e coragem, aceitando que a pergunta não é “porquê eu”, mas antes “porque não eu”, Hitchens enfrenta a Grande Ceifeira com um desassombro de que poucos serão capazes. Por isso mesmo, apesar das dificuldades que lhe são inerentes, este é um livro de que gostei muito de ler e cuja leitura recomendo.







quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

De Olhos Abertos, Marguerite Yourcenar


Marguerite Yourcenar agée
Marguerite Yourcenar

    Marguerite Yourcenar é uma das mais marcantes escritoras do século XX. Nascida em Bruxelas, foi a primeira mulher a ser reconhecida pela Academia Francesa. Escreveu obras tão marcantes como Alexis ou o Tratado do vão combate, A obra ao negro, As memórias de Adriano e Contos Orientais. Livros que nos acompanham durante toda a vida. Para ler e reler. Além disso, tem um amplo conjunto de ensaios sobre os mais variados temas, desde as viagens, passando pelas suas impressões sobre obras de arte e assuntos do quotidiano que a marcaram.
 De olhos abertos colige as conversas que foi tendo ao longo dos anos com Matthieu Galey. Nelas Marguerite fala da sua infância e juventude, dos seus livros, do seu processo criativo, bem como dos seus gostos pessoais.
 Um dos aspectos mais interessantes do livro, a meu ver, são as palavras de Marguerite sobre os seus heróis Zenão e Adriano. Quando as lemos quase parece que eles são pessoas reais, das relações da escritora. Para ela, pelo menos, mostra-se evidente que é assim.
Por vezes, os grandes criadores tornam-se conhecidos por terem uma personalidade egoísta e caprichosa, pouco consentânea com a obra produzida. Não foi esse o caso de Marguerite. Este livro revela-nos que  por trás da personalidade literária contida e algo “cerebral” estava uma pessoa sensível e atenta ao que a rodeava. Isso é visível, não apenas nas suas preocupações sociais e com o meio ambiente (muito antes da ecologia se tornar uma tendência), mas também no modo como fala dos que a rodeavam. Basta ter presente esta sua observação “(…) Mas na vida corrente, novamente, dependemos de outros seres e eles dependem de nós. Tenho muitos amigos na vila. As pessoas que emprego, e sem as quais teria muita dificuldade em manter-me nesta casa, na verdade bastante isolada, e faltando-me tempo e força física para fazer a lida doméstica e a do jardim, são minhas amigas; de outro modo não estariam aqui. Não concebo que nos sintamos desobrigados em relação a um ser porque lhe pagamos (ou dele recebemos) um salário. Ou, como nas cidades, porque obtivemos algum objecto (um jornal, suponhamos) em troca de moedas, ou alimentos em troca de uma nota (…). Quando acolhemos muitos os seres, nunca somos o que se pode considerar solitários. A classe (palavra detestável, que gostaria de ver suprimida, tal como a palavra casta) não conta para nada: a cultura, no fundo, conta muito pouco – o que certamente não digo para rebaixar a cultura. Também não nego o fenómeno a que se chama “a classe”, mas os seres elevam-se sempre acima disso.”
Marguerite Yourcenar faleceu em Dezembro de 1987. Este livro de entrevistas permite perceber porque motivo a sua obra literária se desprende do tempo e é imortal. Para quem conhece a sua obra é indispensável. Mas mesmo para quem nela não tenha interesse (o que, confesso, me é difícil de perceber) este livro é um convite à reflexão que vale por si.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A estante dos outros (V)

Para ilustrar as suas respostas o meu convidado escolheu
o inconfundível Eça de Queirós

Conhecemo-nos há mais de quinze anos. A diferença de idades não impediu que de pessoas que partilhavam o espaço físico do trabalho passássemos a Amigos. O que poderia ter sido em emprego algo enfadonho é hoje recordado como um tempo de permanente descoberta, com lugar para conversas bem dispostas sobre quase todos os temas.
A Luís Almeida, jurista, 82 anos de idade, devo, não só a paciência infinita com que me apoiou na experiência laboral, mas muitas descobertas, como o Museu Nacional de Arte Antiga, Karl Popper (por quem passei de forma insuspeita na minha vida académica) e Les Adieux de Beethoven.

Qual a sua primeira recordação literária?
Já sabia ler, mas gostava de ouvir contar as histórias das "Mil e Uma Noites".
            Indique três livros que o tenham marcado e porquê.
Cada fase da vida tem os seus livros preferidos. Da infância, recordo, por exemplo, o "Romance da Raposa" de Aquilino Ribeiro e a colaboração literária de Raul Correia n' "O Mosquito". Da adolescência, as "Notas Contemporâneas" e o Eça, em geral. E "Viagem à Aurora do Mundo" de Erico Veríssimo. Era uma divulgação da doutrina evolucionista, entremeada com uma ténue intriga romântica. Para mim foi um choque. Mais tarde houve outros amores, mas não tão penetrantes como os antigos. (Deixo de lado a memória dalguns livros por onde estudei ao longo da vida.).
            Tem hábitos ou rituais de leitura?
A leitura é a minha companhia consoladora em qualquer lado, menos na cama.
             Que livro não leria nem que lhe pagassem o seu peso em ouro?
Um livro em chinês.
            O que leria se dispusesse de três meses de folga, sem quaisquer preocupações?
Se passasse três meses fora deste mundo, revisitaria os meus primeiros amores.
            O que está a ler agora?
Tenho alternado as leituras de "O Mistério da`Última Ceia/Uma Viagem Histórica aos Últimos Dias de Jesus" de Colin J. Humphreys e "Porquê Ler Marx Hoje?" de Jonathan Wolff.