quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

De Olhos Abertos, Marguerite Yourcenar


Marguerite Yourcenar agée
Marguerite Yourcenar

    Marguerite Yourcenar é uma das mais marcantes escritoras do século XX. Nascida em Bruxelas, foi a primeira mulher a ser reconhecida pela Academia Francesa. Escreveu obras tão marcantes como Alexis ou o Tratado do vão combate, A obra ao negro, As memórias de Adriano e Contos Orientais. Livros que nos acompanham durante toda a vida. Para ler e reler. Além disso, tem um amplo conjunto de ensaios sobre os mais variados temas, desde as viagens, passando pelas suas impressões sobre obras de arte e assuntos do quotidiano que a marcaram.
 De olhos abertos colige as conversas que foi tendo ao longo dos anos com Matthieu Galey. Nelas Marguerite fala da sua infância e juventude, dos seus livros, do seu processo criativo, bem como dos seus gostos pessoais.
 Um dos aspectos mais interessantes do livro, a meu ver, são as palavras de Marguerite sobre os seus heróis Zenão e Adriano. Quando as lemos quase parece que eles são pessoas reais, das relações da escritora. Para ela, pelo menos, mostra-se evidente que é assim.
Por vezes, os grandes criadores tornam-se conhecidos por terem uma personalidade egoísta e caprichosa, pouco consentânea com a obra produzida. Não foi esse o caso de Marguerite. Este livro revela-nos que  por trás da personalidade literária contida e algo “cerebral” estava uma pessoa sensível e atenta ao que a rodeava. Isso é visível, não apenas nas suas preocupações sociais e com o meio ambiente (muito antes da ecologia se tornar uma tendência), mas também no modo como fala dos que a rodeavam. Basta ter presente esta sua observação “(…) Mas na vida corrente, novamente, dependemos de outros seres e eles dependem de nós. Tenho muitos amigos na vila. As pessoas que emprego, e sem as quais teria muita dificuldade em manter-me nesta casa, na verdade bastante isolada, e faltando-me tempo e força física para fazer a lida doméstica e a do jardim, são minhas amigas; de outro modo não estariam aqui. Não concebo que nos sintamos desobrigados em relação a um ser porque lhe pagamos (ou dele recebemos) um salário. Ou, como nas cidades, porque obtivemos algum objecto (um jornal, suponhamos) em troca de moedas, ou alimentos em troca de uma nota (…). Quando acolhemos muitos os seres, nunca somos o que se pode considerar solitários. A classe (palavra detestável, que gostaria de ver suprimida, tal como a palavra casta) não conta para nada: a cultura, no fundo, conta muito pouco – o que certamente não digo para rebaixar a cultura. Também não nego o fenómeno a que se chama “a classe”, mas os seres elevam-se sempre acima disso.”
Marguerite Yourcenar faleceu em Dezembro de 1987. Este livro de entrevistas permite perceber porque motivo a sua obra literária se desprende do tempo e é imortal. Para quem conhece a sua obra é indispensável. Mas mesmo para quem nela não tenha interesse (o que, confesso, me é difícil de perceber) este livro é um convite à reflexão que vale por si.

Sem comentários:

Enviar um comentário