segunda-feira, 25 de março de 2013

A vida que podemos salvar, Peter Singer

   Não sou ateniense, nem grego sou um cidadão do mundo é uma frase deSócrates em que nos nossos dias somos convidados a rever-nos. Mas ser um cidadão do mundo é mais do que passear pelos aeroportos internacionais, ver cinema fora do circuito comercial e manejar com destreza os pauzinhos que nos habilitam a comer arroz à oriental.
Ser cidadão do mundo implica ter uma consciência global. E é sobre isso que nos fala o livro The life you can save (em Portugal, A vida que podemos salvar). O seu autor é Peter Singer, um dos principais filósofos contemporâneos. Nascido na Austrália, já foi definido como o homem mais perigoso do mundo. Neste livro discute a responsabilidade de cada um de nós, que vive na parte desenvolvida do planeta, para com os cidadãos do chamado Terceiro Mundo. A questão central é analisar o que podemos (e devemos) fazer individualmente para solucionar as questões de pobreza endémica existentes sobretudo em países africanos e asiáticos, afectando actualmente 1,4 biliões de pessoas (podem ler aqui).
Este livro é um exercício rigoroso sobre os deveres éticos de cada um de nós. Está escrito de uma forma desenvolta e clara, pelo que a sua leitura é, do ponto do vista intelectual, um prazer. E mesmo que não se concorde com tudo o que lá está escrito, penso que é indubitável a honestidade intelectual com que as questões são debatidas. Singer coloca questões práticas importantes, mostrando que a filosofia está longe de ser uma matéria estéril e bolorenta. Pelo contrário, é um instrumento essencial para nos posicionarmos no mundo de forma consciente.
As perguntas colocadas não o são apenas na óptica dos deveres do potencial doador. Singer aborda duas questões essenciais e que num país como o nosso (onde todos os dias à porta de supermercados e centros comerciais surgem peditórios para associações virtualmente desconhecidas) até dariam um debate público interessante: transparência e eficácia das organizações não governamentais (ONG). A transparência é o dever dos que recebem donativos mostrarem de que modo é que o dinheiro ou outros bens foram utilizados. A eficácia traduz-se na demonstração de que a actuação da ONG tem resultados práticos reconduzíveis a uma efectiva melhoria das condições de vida das populações que recebem a ajuda.
Na edição inglesa do livro lê-se na sobrecapa que esta leitura vai transformar o modo como pensamos no acto de dar. De facto, lido o livro, tenho de concluir que essa indicação é tudo menos publicidade enganosa. Ler Singer obriga-nos a questionarmo-nos sobre nós mesmos. Um exercício que pode causar algum incómodo, mas que acaba sempre por se revelar útil.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A poem a day keeps the doctor away

Van Gogh



      Anton Tchekhov escreveu um dia que qualquer um faz face a uma crise, é o quotidiano que nos deixa extenuados. Concordo com essa frase. Por isso, deixo hoje um poema que sempre interpretei como um repto e um desafio: o de vivermos e sermos nós próprios todos os dias. À medida que avançamos na idade, percebemos que não é tão fácil quanto se poderia pensar. Para além de termos de descobrir quem somos, há ainda toda uma série de obstáculos a ultrapassar para lá chegármos. E, todavia, sermos nós próprios é a única coisa que poderemos verdadeiramente aspirar a ser.
Decidi ilustrar o poema com um quadro de Van Gogh de que gosto muito. À sua maneira, também ele foi um poeta.


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta viva.

Ricardo Reis

 
 

 

terça-feira, 5 de março de 2013

Em parte incerta, Gillian Flynn


Gillian Flyn

Nick e Amy Dunne conhecem-se em Nova Iorque. Apaixonam-se, casam e durante algum tempo tudo se aproxima o suficiente da perfeição para se considerarem felizes. Gradualmente, porém, este cenário idílico começa a mudar. Ambos ficam desempregados e acabam por ir viver para a cidade natal de Nick no Missouri. É aí, no dia do quinto aniversário do casamento, que Amy desaparece.
É este o ponto de partida da história de Em parte incerta de Gillian Flyn, cuja edição portuguesa tem na capa esta enigmática pergunta “Acha mesmo que conhece a pessoa que dorme ao seu lado?” Bom, o que posso dizer depois de ler o livro é que se espera que quaisquer dimensões ocultas não estejam ao nível do relatado nesta obra.
Embora não leia muitos policiais, as críticas a este eram tão boas que decidi fazer uma incursão nesse território. E ainda bem. Como sucede com todos os bons policiais, sem prejuízo da intriga principal (o desaparecimento de Amy) há várias outras linhas de escrita que chamam à atenção.
Desde logo, o modo como retrata o relacionamento entre Amy e Nick. Aparentemente sólido, assenta apenas num padrão de normalidade que, quando desaparece, contribui de forma decisiva para o correar da vida conjugal. Por outro lado, é patente que Flyn se tenta afastar dos habituais estereótipos, o que é conseguido na intriga principal. Brinca com as fórmulas habituais (como a do marido que se torna o principal suspeito) e introduz constantes reviravoltas e surpresas no enredo, o que torna a leitura emocionante.
O aspecto menos conseguido do livro, a meu ver, é o tratamento das personagens secundárias. Nenhuma delas é desenvolvida de modo a ganhar autonomia. Parecem meros figurantes, não existindo qualquer enredo secundário. Para além disso algumas dessas personagens são modelos de lugares comuns deste tipo de ficção (por exemplo, o pai de Nick falhado nesse papel e no de marido, a atormentar o filho, a vizinha “adoradora” ou a dupla policial chamada a investigar o desaparecimento de Amy, muito próxima das construções televisivas). Quanto à tradução, parece-me que em determinados momentos podia ter optado por palavras que, embora respeitassem o vernáculo original, fossem um pouco mais suaves ao ouvido do leitor. Só lendo a versão inglesa se pode dar uma opinião segura quanto a este aspecto, mas sendo a língua portuguesa tão rica há uma ou outra palavra que poderia ser traduzida de forma menos dura sem atraiçoar o seu sentido. De qualquer forma esta é uma história escrita com fluídez que seguimos sem dificuldades. A narrativa divide-se por capítulos alternativos em que vamos lendo, ora a perspectiva de Nick Dunne, ora a da sua desaparecida esposa.
Como disse, as surpresas são mais que muitas nesta história. E a maior delas está reservada para o último capítulo, com um desenlace cruel para um dos protagonistas e que deixa um amargo de boca ao leitor.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A estante dos outros (VI)


A minha convidada deste mês é Teresa Lopes Vieira, escritora. Publicou já Os diários da mulher Peter Pan e Gato Persa Social Club. Para além de outras actividades que já levou a cabo e paralelamente à sua carreira literária é também formadora em diversos cursos de escrita criativa.
O terceiro livro verá a luz do dia ainda este ano. Até lá podemos acompanhá-la no blogue que tem o seu nome.
Obrigada Teresa!
 




Qual é a tua primeira recordação literária?
A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia, de Selma Lagerlöf. Acho que nem sequer sabia ler, porque foi o meu pai que mo leu. No fim, chorei como uma perdida.

2. Indica três livros que o/a tenham marcado e porquê.
As Flores do Mal, do Charles Baudelaire, foi a minha primeira referência literária “séria”, ou seja, mais conscienciosa. Gosto sobretudo do Baudelaire também por causa do conceito de poeta maldito, porque me fez pela primeira vez olhar para a hipótese da arte literária como meio de anti-conformismo social.
Destacaria também O Jogador de Xadrez de Stefan Zweig, uma obra exímia do ponto de vista da história, enredo e da maneira como retrata a angústia humana.
Mais recentemente, haveria imensos. Mas posso indicar, por exemplo, 2666, de Roberto Bolaño; porque me parece que marca um ponto de viragem muito interessante na literatura moderna, traduzindo-se numa visão que acaba por influenciar um pouco quase toda a gente que escreve hoje em dia.


3. Tens um hábito ou ritual de leitura?
Não, é um pouco como calha.

4. Qual o livro que não lerias nem que que pagassem o teu peso em ouro?
O Pantagruel?

5. Se tivesses três meses de folga, sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias para ler?
Talvez o Mahabharata, a grande epopeia indiana, alternando com a Divina Comédia. É daquelas coisas.

6. O que estás a ler agora?
Demonic Males, um ensaio de antropologia sobre símios e a origem da violência humana!