terça-feira, 5 de março de 2013

Em parte incerta, Gillian Flynn


Gillian Flyn

Nick e Amy Dunne conhecem-se em Nova Iorque. Apaixonam-se, casam e durante algum tempo tudo se aproxima o suficiente da perfeição para se considerarem felizes. Gradualmente, porém, este cenário idílico começa a mudar. Ambos ficam desempregados e acabam por ir viver para a cidade natal de Nick no Missouri. É aí, no dia do quinto aniversário do casamento, que Amy desaparece.
É este o ponto de partida da história de Em parte incerta de Gillian Flyn, cuja edição portuguesa tem na capa esta enigmática pergunta “Acha mesmo que conhece a pessoa que dorme ao seu lado?” Bom, o que posso dizer depois de ler o livro é que se espera que quaisquer dimensões ocultas não estejam ao nível do relatado nesta obra.
Embora não leia muitos policiais, as críticas a este eram tão boas que decidi fazer uma incursão nesse território. E ainda bem. Como sucede com todos os bons policiais, sem prejuízo da intriga principal (o desaparecimento de Amy) há várias outras linhas de escrita que chamam à atenção.
Desde logo, o modo como retrata o relacionamento entre Amy e Nick. Aparentemente sólido, assenta apenas num padrão de normalidade que, quando desaparece, contribui de forma decisiva para o correar da vida conjugal. Por outro lado, é patente que Flyn se tenta afastar dos habituais estereótipos, o que é conseguido na intriga principal. Brinca com as fórmulas habituais (como a do marido que se torna o principal suspeito) e introduz constantes reviravoltas e surpresas no enredo, o que torna a leitura emocionante.
O aspecto menos conseguido do livro, a meu ver, é o tratamento das personagens secundárias. Nenhuma delas é desenvolvida de modo a ganhar autonomia. Parecem meros figurantes, não existindo qualquer enredo secundário. Para além disso algumas dessas personagens são modelos de lugares comuns deste tipo de ficção (por exemplo, o pai de Nick falhado nesse papel e no de marido, a atormentar o filho, a vizinha “adoradora” ou a dupla policial chamada a investigar o desaparecimento de Amy, muito próxima das construções televisivas). Quanto à tradução, parece-me que em determinados momentos podia ter optado por palavras que, embora respeitassem o vernáculo original, fossem um pouco mais suaves ao ouvido do leitor. Só lendo a versão inglesa se pode dar uma opinião segura quanto a este aspecto, mas sendo a língua portuguesa tão rica há uma ou outra palavra que poderia ser traduzida de forma menos dura sem atraiçoar o seu sentido. De qualquer forma esta é uma história escrita com fluídez que seguimos sem dificuldades. A narrativa divide-se por capítulos alternativos em que vamos lendo, ora a perspectiva de Nick Dunne, ora a da sua desaparecida esposa.
Como disse, as surpresas são mais que muitas nesta história. E a maior delas está reservada para o último capítulo, com um desenlace cruel para um dos protagonistas e que deixa um amargo de boca ao leitor.

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