quarta-feira, 24 de abril de 2013

Pensamentos, Oscar Wilde

Oscar Wilde
De uma maneira geral, não gosto de livros de citações, pensamentos ou aforismos. Parecem-me um sucedâneo de livros condensados ou daquelas obras que prometem ensinar tudo o que interessa saber sobre Proust, dispensando-nos de ler os sete volumes de Um busca do tempo perdido.
Ainda assim, comprei Pensamentos, do Oscar Wilde, uma edição da Relógio d'Água. De Wilde li pouca coisa. Recordo, em particular, O retrato de Dorian Gray, um livro sobre a beleza, a vaidade e o mal. E é quase impossível deambular pela Internet sem encontrar alguma das suas citações corrosivas sobre a natureza humana. Mas esta aparente popularidade de Wilde traz consigo uma certa injustiça. As citações são quase sempre de natureza mundana. E Wilde foi muito mais do que isso. O primeiro mérito desta colectâna está na reparação dessa injustiça.
O prefácio é de Francisco Vale. Em meia dúzia de páginas traça um retrato breve, mas completo, da vida de Wilde e da sua personalidade. E prepara-nos para o que vamos encontrar.
Os pensamentos de Oscar Wilde estão agrupados por temas. Incluem extractos de diversas obras suas e reflexões recolhidas em cartas e episódios da sua vida. O traço essencial é o da diversidade, espelhando as vicissitudes da própria vida de Wilde. Encontramos passagens leves (por exemplo, “Dêem-me os luxos; os outros podem muito bem ficar com as necessidades básicas” ou “Agrada-me ser só eu a falar; poupa tempo e evita discussões”), mas também trechos mais profundos recolhidos de obras como De Profundis, A Alma do Homem sob o Socialismo ou O Declínio da Mentira. Aí encontramos uma outra dimensão de Wilde e podemos concluir quão injusto é reduzi-lo à figura de um escritor de comédias leves ou a uma personagem diletante. Teria certamente essas vertentes. Mas não se esgotava nelas. Isso é visível quando lemos o que deixou escrito sobre temas como o jornalismo, a religião ou a reforma das prisões. Ou as suas reflexões sobre a natureza humana. Da leitura da totalidade dos textos recolhidos infere-se a multiplicidade de interesses e a sensibilidade de Wilde. Lidos os pensamentos avulsos, fica a vontade de mergulhar na sua obra e conhecer o muito que deixou escrito. Por sorte, abre em breve a época das feiras do livro.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Persepolis, Marjane Satrapi

Em Março deste ano surgiu a notícia de que em Chicago tinha sido determinada a retirada do livro Persepolis das bibliotecas das escolas públicas, sendo igualmente limitado o seu ensino. A informação causou grande impacto nos Estados Unidos da América e noutros pontos de mundo.
Persepolis é um relato autobiográfico de Marjane Satrapi sobre a sua vida no Irão na sequência da queda do Xá e subsequente tomada do poder pelo regime dos ayatollahs. É uma banda desenhada. O que me impressionou quando o li foi a capacidade da autora, já adulta quando escreveu, nos fazer ver a realidade sobre os olhos de uma criança. Outro aspecto de que me recordo é o modo como conta as dificuldades de adaptação sentidas quando passou a viver na Europa.
Não é a primeira vez que em tempos recentes um livro é banido por ser julgado inapropriado. Neste caso, na base da discórdia estão alguns cartoons relativos ao uso da tortura na Irão. Na verdade, e como a autora sublinha, nesta entrevista à Socialist Worker são dois ou três desenhos entre centenas de outros. Por outro lado, do que vi, não parece que qualquer criança tenha tido problemas ou apresentado queixas por ter ficado impressionado com a obra. E ainda que fosse distinta a situação, será assim tão mau ficar marcado pelo que se lê num livro, para mais baseado em factos reais?
Em miúda, ninguém me impediu de ler tudo aquilo que quis. Encantei-me com as histórias da Anita uma e outra vez. Apesar do sexismo de que é acusada, a sua leitura não me conduziu a ser uma fada do lar. Com 10 anos li A tragédia da Rua das Flores. E partir daí fui pondo de lado os livros para crianças. Troquei-os por outros livros do Eça, por policiais e por incursões na literatura sul-americana. Não sei se eram adequados à minha idade. Tenho dúvidas se os terei percebido a todos na primeira leitura. Mas não tive pesadelos e não deixei de ser uma criança normal por causa dessas leituras.
Mais uma vez, (alguns) adultos criam problemas onde eles não existem. Os livros não fazem mal a ninguém. E é por isso que fico sempre nervosa com estes movimentos de censura mais ou menos encapotado que vêm problemas onde eles não existem. Até porque acredito naquilo que Marjane Satrapi diz na entrevista quanto mais sabemos mais livres somos. O que é bom, parece-me. 
Para além dos livros e do cinema, Marjane Satrapi dedica-se também à pintura, estando os seus trabalhos em exposição em Paris neste momento. Quem como eu não se pode deslocar à cidade luz, pode vê-los neste blogue, onde vi a notícia. 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Os superficiais - O que a internet está a fazer aos nossos cérebros, Nicholas Carr

Internet, youtube, blogues, facebook, tweeter. Motores de busca. Todo um mundo de possibilidades que podemos explorar. As vantagens da partilha de informação e de estar ligado são conhecidas. Mas não há bela, sem senão. E sobre o senão que Carr escreve.
Há uns anos li um livro com o sugestivo título Tudo o que é mau faz bem da autoria de Steven Johnson. A ideia chave é a de que o recurso à Internet, aos jogos de vídeo e a outras formas de entretenimento recentes é, contra tudo o que é  escrito pelos velhos do Restelo, positivo, por permitir exercitar a mente, ganhando esta novas competências. Pode ser que sim. Aliás, o livro de Nicholas Carr não nega que a utilização da internet traz vantagens. Foca, porém, as consequências da sua utilização massiva.
A tese de Carr é a de que o afluxo constante de informação está a levar a que os nossos cérebros percam a capacidade de concentração, com a consequente diminuição da capacidade pensar de forma profunda. Isto é, enquanto a capacidade de ligar conhecimentos está a aumentar a aptidão para os trabalhar está a regredir. Este efeito é visível quer em cada um de nós individualmente, quer na população em geral. E tenderá a impor-se no futuro.
Carr socorre-se de conceitos de neurociência que consegue tornar acessíveis ao público mais alargado (como eu, diga-se). Um deles é o de neuroplasticidade. Na verdade, o cérebro não é um produto acabado, reagindo aos estímulos que vai recebendo. Essa capacidade existe para cada pessoa ao longo da sua vida e para a espécie humana em geral. Mas neuroplasticidade não equivale a elasticidade sem fim. Deste modo, o desenvolvimento de determinadas capacidades não pode fazer-se sem a regressão de outras. Carr lança mão de exemplos históricos para mostrar como as nossas mentes evoluíram. A este propósito explica detalhadamente o impacto da passagem da leitura da forma oral para a forma silenciosa e da subsequente generalização daquele hábito.
            Um dos aspectos que torna este livro tão interessante de ler é o modo como as ideias estão expostas, de forma clara e precisa. Ao prazer da leitura ajuda ainda o facto do autor, não enveredando por facilitismos, ter ainda assim uma escrita com sentido de humor. Não se coloca num palanque para advertir os demais quanto às consequências da utilização da internet. Ao invés, o próprio Carr confessa ter um blogue, conta no Facebook e outras virtualidades técnicas. Acresce que à medida que vamos lendo o livro encontramos espelhados comportamentos que pensamos serem apenas nossos ou, pelo menos, minoritários. Por exemplo, quantas vezes começamos a ler um artigo no FB, daí saltamos para um outro e depois para um blogue, para logo de seguida avançarmos para um outro link que este nos oferece? E, se pensarmos bem, quantas vezes nos lembramos efectivamente daquilo que lemos? Ou reflectimos sobre isso? Fiz este exercício e fiquei um pouco assustada. Sobretudo quando percebi que se trata de uma tendência generalizada e que pode ser indicativa de uma mudança na forma como pensamos. E que tal mudança não parece ser boa.
         Claro que não vou deixar de usar a Internet (penso que tal já nem é possível para muitos de nós). Mas vale a pena reflectir sobre o uso que dela fazemos. E é isso que Carr propõe.

terça-feira, 2 de abril de 2013

O Mundo de Enid Blyton, Alice Vieira

Enid Blyton e as filhas

Sempre que entro numa livraria não saio de mãos a abanar. Tenho tentado levar a cabo um esforço de contenção, mas os meus pezinhos parecem ter vida própria. Quase sem dar conta conduzem-me à porta de uma livraria. Já que aqui estou, mais vale entrar, ao menos para ver as novidades, penso. E é certo e sabido que há sempre qualquer coisa imperdível e que mais vale comprar já.
Foi exactamente isto que me sucedeu há dias. E não é que entre as novidades estava um livro de Alice Vieira sobre Enid Blyton? Ainda por cima, com uma capa lindíssima, com fotografias dos livros dos Cinco, na edição antiga. Irresistível, claro.
O Nodi passou-me ao lado. Os Sete não me cativaram. Mas li e reli os Cinco e as Gémeas no Colégio de Santa Clara. Já não são livros em que pegue hoje em dia, pois raramente leio literatura infantil. E quando sinto alguma nostalgia vou à prateleira onde guardo a Colecção Azul, recordar os ataques de mau génio do General Dourakine ou as alegrias e tristezas de Sara Crewe.
De qualquer modo, não hesitei quando vi o livro sobre Enid Blyton. E, num par de horas, estava lido. Alice Vieira narra os principais acontecimentos da vida de Blyton e o modo como a sua obra foi recebido ao longo do tempo.
Quando à biografia da escritora inglesa, foi uma surpresa descobrir a sua infância infeliz. E saber que foi uma mãe ausente, tendo traços de personalidade pouco simpáticos. Já algumas das críticas que são feitas à sua obra parecem-me injustas. Apontar-lhe sentimentos xenófobos, racistas ou sexistas, tendo em atenção a época em que viveu é, a meu ver, deslocado. Parece-me também infeliz a ideia de expurgar a sua obra dos elementos tidos por politicamente incorrectos (sobre a actualização da obra de Blyton, podem também ler aqui).
Mesmo que não tenha sido a minha escritora favorita em miúda guardo boas recordações da leitura dos Cinco e das Gémeas. Lembro-me das horas passadas a ler e reler Os Cinco nas Montanhas de Gales ou Os Cinco e o Comboio Fantasma. A liberdade de que as personagens gozavam, as constantes aventuras que acabavam sempre bem, os laços de amizade e os lanches e ceias que pontuavam os livros são memórias gratas da minha infância. Talvez por isso, sem desprimor para a parte biográfica e de análise das obras, também muito interessantes e bem escritas, o que mais gostei neste livro de Alice Vieira foi dos testemunhos recolhidos junto de várias gerações de leitores sobre a importância da obra de Blyton nas suas vidas. E quando fechei o livro pensei que era mesmo bom que fosse editada uma obra semelhante sobre a Condessa de Ségur.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A estante dos outros (VII)



 
           A minha convidada deste mês é Bárbara Soares, editora e coordenadora de eventos. Conheci-a por força de duas paixões comuns, a leitura e a escrita. Actualmente, Bárbara integra a equipa de um projecto relacionado com o mundo da arte e da cultura, intitulado "The Art Boulevard" - http://theartboulevard.org/. O objectivo é criar uma rede de oportunidades e colaborações entre artistas e espaços culturais. A leitura e a escrita são dois dos seus principais passatempos.
         Obrigada pela disponibilidade Bárbara!


1. Qual é a tua primeira recordação literária?
A minha primeira grande recordação literária são "As Minas do Rei Salomão" traduzidas pelo Eça de Queiroz. Desde criança que me lembro de estar sempre rodeada de livros e de nunca adormecer sem ler ou sem me lerem uma história. Existem alguns livros da minha infância de que tenho uma imagem mais presente do que outros, mas creio que a primeira grande memória que me ficou foi a deste livro traduzido pelo Eça. Creio que tinha 10 anos quando o li e fiquei absolutamente fascinada. Devorei-o em 2 dias! Encantou-me não só por ser uma espécie de diário de viagens, mas principalmente por ser uma verdadeira aventura num continente tórrido e por desbravar, onde cada obstáculo me fazia querer virar página atrás de página. 
 2. Indica três livros que te tenham marcado.
Um dos livros que mais me marcou foi "A Festa do Chibo" do Mário Vargas Llosa. Em primeiro lugar, sempre gostei  muito de romances históricos. Talvez pela minha área de formação em Relações Internacionais, tenho sempre um grande interesse por livros que não sejam demasiado "técnicos" mas que, de alguma forma, incidam sobre os temas da minha área. "A Festa do Chibo" retrata o clima de opressão e terror vivido na República Dominicana durante a ditadura de Trujillo que governou o país entre as décadas de 30 e 40. Para mim, é uma obra incrível não só pela forma como o enredo está construído, mas principalmente pela forma como o autor descreve o ambiente da época e retrata as personagens. Apesar da República Dominica ser uma realidade tão diferente da nossa, senti-me absolutamente transportada para aquele ambiente, chegando mesmo a amar e a odiar diferentes personagens, tal é a intensidade com que Vargas Llosa as retrata.
 Em segundo lugar, "A Relíquia" do Eça de Queiroz. É uma obra-prima de ironia e humor e o que mais me fascinou foi a sua precocidade para a época em que foi escrita. Ri às gargalhadas em várias passagens e imagino o choque moral que teria provocado em pleno século XIX. Numa época em que a família, a religião e o convencionalismo eram pilares centrais da sociedade, as artimanhas de Teodorico para tentar abarbatar a fortuna da sua "titi" Dona Maria do Patrocínio são absolutamente hilariantes! Além disso, há neste livro vários pontos de sátira social que permanecem bastante atuais o que, de resto, é uma marca que me encanta em praticamente toda a obra do Eça.
 Por último, o "Terra Sonâmbula". Sou uma grande fã do Mia Couto, não só enquanto escritor, mas também enquanto pessoa, por já ter tido o privilégio de estar na sua companhia por alguns dias. Este livro é um hino ao poder dos sonhos e da vida. É também um retrato de um Moçambique devastado pela guerra, mas onde ressalta a esperança de um menino sem memória - Muidinga - e do velho Tuahir que se torna o seu melhor amigo. Ambos vagueiam nesta terra que nunca dorme, guiados por um diário que Muidinga acredita que o levará de volta à sua mãe. É tocante a forma como se apoiam um ao outro nesta jornada. 
 3. Tens algum ritual ou hábito de leitura?
Não tenho nenhum ritual. Leio em todo o lado, sempre que me apetece ou posso. Sempre gostei muito de ler antes de dormir, mas ultimamente nem sempre é possível. Por isso aproveito para ler também nos transportes públicos. Ajuda-me a abstrair e, como ando sempre com um livro na carteira, é fácil... 
 4. O que não lerias nem que te pagassem o teu preço em ouro?
Acho que não voltarei a ler mais nada de Daniel Silva ou de Dan Brown. Ofereceram-me um livro de cada um deles e as experiências com ambos foram tão más que não me passa pela cabeça voltar a ler mais nenhum. Sei que pode parecer um pouco desmesurado, mas não gostei mesmo e, por isso, tenho relutância em pegar-lhes cada vez que vejo um exemplar novo na prateleira de uma qualquer livraria.
 5. Se tivesses três meses livres e sem quaisquer preocupações que livros escolherias para ler?
Escolheria grandes livros que adoro, para reler: "Os Maias" do Eça de Queiroz, "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa, “Então Chegámos ao Fim” de Joshua Ferris, "Os Pilares da Terra" e "A Queda dos Gigantes", ambos de Ken Follet. 
 6. O que estás a ler neste momento?
Neste momento estou a ler "A Conspiração de Papel" de David Liss, "Comboio Nocturno para Lisboa" de Pascal Mercier e "Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiveski. Leio sempre mais do que um livro ao mesmo tempo porque gosto de variar as histórias.