segunda-feira, 1 de abril de 2013

A estante dos outros (VII)



 
           A minha convidada deste mês é Bárbara Soares, editora e coordenadora de eventos. Conheci-a por força de duas paixões comuns, a leitura e a escrita. Actualmente, Bárbara integra a equipa de um projecto relacionado com o mundo da arte e da cultura, intitulado "The Art Boulevard" - http://theartboulevard.org/. O objectivo é criar uma rede de oportunidades e colaborações entre artistas e espaços culturais. A leitura e a escrita são dois dos seus principais passatempos.
         Obrigada pela disponibilidade Bárbara!


1. Qual é a tua primeira recordação literária?
A minha primeira grande recordação literária são "As Minas do Rei Salomão" traduzidas pelo Eça de Queiroz. Desde criança que me lembro de estar sempre rodeada de livros e de nunca adormecer sem ler ou sem me lerem uma história. Existem alguns livros da minha infância de que tenho uma imagem mais presente do que outros, mas creio que a primeira grande memória que me ficou foi a deste livro traduzido pelo Eça. Creio que tinha 10 anos quando o li e fiquei absolutamente fascinada. Devorei-o em 2 dias! Encantou-me não só por ser uma espécie de diário de viagens, mas principalmente por ser uma verdadeira aventura num continente tórrido e por desbravar, onde cada obstáculo me fazia querer virar página atrás de página. 
 2. Indica três livros que te tenham marcado.
Um dos livros que mais me marcou foi "A Festa do Chibo" do Mário Vargas Llosa. Em primeiro lugar, sempre gostei  muito de romances históricos. Talvez pela minha área de formação em Relações Internacionais, tenho sempre um grande interesse por livros que não sejam demasiado "técnicos" mas que, de alguma forma, incidam sobre os temas da minha área. "A Festa do Chibo" retrata o clima de opressão e terror vivido na República Dominicana durante a ditadura de Trujillo que governou o país entre as décadas de 30 e 40. Para mim, é uma obra incrível não só pela forma como o enredo está construído, mas principalmente pela forma como o autor descreve o ambiente da época e retrata as personagens. Apesar da República Dominica ser uma realidade tão diferente da nossa, senti-me absolutamente transportada para aquele ambiente, chegando mesmo a amar e a odiar diferentes personagens, tal é a intensidade com que Vargas Llosa as retrata.
 Em segundo lugar, "A Relíquia" do Eça de Queiroz. É uma obra-prima de ironia e humor e o que mais me fascinou foi a sua precocidade para a época em que foi escrita. Ri às gargalhadas em várias passagens e imagino o choque moral que teria provocado em pleno século XIX. Numa época em que a família, a religião e o convencionalismo eram pilares centrais da sociedade, as artimanhas de Teodorico para tentar abarbatar a fortuna da sua "titi" Dona Maria do Patrocínio são absolutamente hilariantes! Além disso, há neste livro vários pontos de sátira social que permanecem bastante atuais o que, de resto, é uma marca que me encanta em praticamente toda a obra do Eça.
 Por último, o "Terra Sonâmbula". Sou uma grande fã do Mia Couto, não só enquanto escritor, mas também enquanto pessoa, por já ter tido o privilégio de estar na sua companhia por alguns dias. Este livro é um hino ao poder dos sonhos e da vida. É também um retrato de um Moçambique devastado pela guerra, mas onde ressalta a esperança de um menino sem memória - Muidinga - e do velho Tuahir que se torna o seu melhor amigo. Ambos vagueiam nesta terra que nunca dorme, guiados por um diário que Muidinga acredita que o levará de volta à sua mãe. É tocante a forma como se apoiam um ao outro nesta jornada. 
 3. Tens algum ritual ou hábito de leitura?
Não tenho nenhum ritual. Leio em todo o lado, sempre que me apetece ou posso. Sempre gostei muito de ler antes de dormir, mas ultimamente nem sempre é possível. Por isso aproveito para ler também nos transportes públicos. Ajuda-me a abstrair e, como ando sempre com um livro na carteira, é fácil... 
 4. O que não lerias nem que te pagassem o teu preço em ouro?
Acho que não voltarei a ler mais nada de Daniel Silva ou de Dan Brown. Ofereceram-me um livro de cada um deles e as experiências com ambos foram tão más que não me passa pela cabeça voltar a ler mais nenhum. Sei que pode parecer um pouco desmesurado, mas não gostei mesmo e, por isso, tenho relutância em pegar-lhes cada vez que vejo um exemplar novo na prateleira de uma qualquer livraria.
 5. Se tivesses três meses livres e sem quaisquer preocupações que livros escolherias para ler?
Escolheria grandes livros que adoro, para reler: "Os Maias" do Eça de Queiroz, "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa, “Então Chegámos ao Fim” de Joshua Ferris, "Os Pilares da Terra" e "A Queda dos Gigantes", ambos de Ken Follet. 
 6. O que estás a ler neste momento?
Neste momento estou a ler "A Conspiração de Papel" de David Liss, "Comboio Nocturno para Lisboa" de Pascal Mercier e "Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiveski. Leio sempre mais do que um livro ao mesmo tempo porque gosto de variar as histórias.



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