segunda-feira, 8 de abril de 2013

Os superficiais - O que a internet está a fazer aos nossos cérebros, Nicholas Carr

Internet, youtube, blogues, facebook, tweeter. Motores de busca. Todo um mundo de possibilidades que podemos explorar. As vantagens da partilha de informação e de estar ligado são conhecidas. Mas não há bela, sem senão. E sobre o senão que Carr escreve.
Há uns anos li um livro com o sugestivo título Tudo o que é mau faz bem da autoria de Steven Johnson. A ideia chave é a de que o recurso à Internet, aos jogos de vídeo e a outras formas de entretenimento recentes é, contra tudo o que é  escrito pelos velhos do Restelo, positivo, por permitir exercitar a mente, ganhando esta novas competências. Pode ser que sim. Aliás, o livro de Nicholas Carr não nega que a utilização da internet traz vantagens. Foca, porém, as consequências da sua utilização massiva.
A tese de Carr é a de que o afluxo constante de informação está a levar a que os nossos cérebros percam a capacidade de concentração, com a consequente diminuição da capacidade pensar de forma profunda. Isto é, enquanto a capacidade de ligar conhecimentos está a aumentar a aptidão para os trabalhar está a regredir. Este efeito é visível quer em cada um de nós individualmente, quer na população em geral. E tenderá a impor-se no futuro.
Carr socorre-se de conceitos de neurociência que consegue tornar acessíveis ao público mais alargado (como eu, diga-se). Um deles é o de neuroplasticidade. Na verdade, o cérebro não é um produto acabado, reagindo aos estímulos que vai recebendo. Essa capacidade existe para cada pessoa ao longo da sua vida e para a espécie humana em geral. Mas neuroplasticidade não equivale a elasticidade sem fim. Deste modo, o desenvolvimento de determinadas capacidades não pode fazer-se sem a regressão de outras. Carr lança mão de exemplos históricos para mostrar como as nossas mentes evoluíram. A este propósito explica detalhadamente o impacto da passagem da leitura da forma oral para a forma silenciosa e da subsequente generalização daquele hábito.
            Um dos aspectos que torna este livro tão interessante de ler é o modo como as ideias estão expostas, de forma clara e precisa. Ao prazer da leitura ajuda ainda o facto do autor, não enveredando por facilitismos, ter ainda assim uma escrita com sentido de humor. Não se coloca num palanque para advertir os demais quanto às consequências da utilização da internet. Ao invés, o próprio Carr confessa ter um blogue, conta no Facebook e outras virtualidades técnicas. Acresce que à medida que vamos lendo o livro encontramos espelhados comportamentos que pensamos serem apenas nossos ou, pelo menos, minoritários. Por exemplo, quantas vezes começamos a ler um artigo no FB, daí saltamos para um outro e depois para um blogue, para logo de seguida avançarmos para um outro link que este nos oferece? E, se pensarmos bem, quantas vezes nos lembramos efectivamente daquilo que lemos? Ou reflectimos sobre isso? Fiz este exercício e fiquei um pouco assustada. Sobretudo quando percebi que se trata de uma tendência generalizada e que pode ser indicativa de uma mudança na forma como pensamos. E que tal mudança não parece ser boa.
         Claro que não vou deixar de usar a Internet (penso que tal já nem é possível para muitos de nós). Mas vale a pena reflectir sobre o uso que dela fazemos. E é isso que Carr propõe.

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