sexta-feira, 24 de maio de 2013

Haruki Murakami dixit


Haruki Murakami

"Se apenas leres o que os outros lêem, só podes pensar o que os outros pensam".
Não sei se concordo em absoluto com esta frase. Mas ela não deixa de apontar um bom motivo para ler “sem rede”. O que nos apetece. Quando nos apetece. Para além do que dizem os amigos, as listas de vendas e os críticos de serviço.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Hei-de amar-te mais, Tiago Salazar

Coragem. Também generosidade e alegria. Mas sobretudo uma grande dose de bravura.
            É esta a nota dominante da leitura do livro de Tiago Salazar “Hei-de amar-te mais”.
Escrito em forma de diário é um testemunho de amor pela mulher, pelos filhos e pela vida. Li-o ao longo do fim-de-semana, incapaz de o pôr de lado. Pelas múltiplas ousadias e pela capacidade de exposição, já rara nos nossos dias cobertos de cinismos ad cautelam e cepticismos como exercícios de método. E também pela beleza de algumas frases. Tão mais bonitas por, para além da forma, terem conteúdo.
            Num momento em que a palavra mais ouvida é “crise” e num mundo em que somos levados a crer que tudo é relativo e contingente, é extraordinário encontrar a declaração de amor que este livro é. Porque nele se assume que o amor não é “eterno enquanto dure”, como canta o estafado verso de Vinicius de Moraes. É eterno. Ponto. Ou, como se escreve algures neste livro, “é um amor de sempre e para sempre”.
            É esta a primeira ousadia de Tiago Salazar. E a mais constante ao longo do livro. A que nos deixa abismados pela valentia em assumir os sentimentos. Só por isto já vale a pena mergulhar neste livro. Mas não só. Há também nas linhas escritas uma grande dose de generosidade. Na forma como o escritor se expõe nas suas dúvidas e inquietações, anseios e buscas. Porque normalmente assistimos ao produto final, mas não ao processo de construção. Que é precisamente o que este livro nos dá.
         À medida que avançamos na leitura vemos lá ao longe a vidinha. As contas, as dificuldades do dia-a-dia, próprias e comuns a tantos de nós. Ela está lá, sim. E não pode ser ignorada. Mas bem à frente nas preocupações do autor está a Vida no que ela tem de essencial. O amor, a escrita e o ioga (não sei se por esta ordem). Um caminho com obstáculos, mas semeado de ledice. É para esse trilho que o escritor nos convoca em frases como “tenho sentido que a vida é demasiado breve para se perder a oportunidade de viver com tudo” ou “é muito difícil ser inteiro de corpo inteiro a tempo inteiro”.
            Convocando Neruda, Lispector e Tagore, entre outros, este livro, escrito por um viajante, mostra-nos a maior jornada que qualquer um de nós pode ter a força de empreender: a navegação interior, à procura do que é essencial para cada um de nós.  Nestes tempos tão difíceis o que mais se pode desejar é que este exemplo nos inspire, também a cada um de nós, a não desistir. Antes a perseverar com esforço e alegria, como o autor deste livro.  

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O elogio do gratuito






"Li uma vez e não me sai da cabeça um texto da escritora Clarice Lispector sobre esse improviso que salva a vida: ela chama-lhe acertadamente o “ato gratuito”. Talvez se deva começar por explicar aquilo que o ato gratuito não é. Ele não é mais uma estação ofegante luta pela vida que é. Ele não é mais um estação da ofegante luta pela vida que quotidianamente nos traz mobilizados. Ele não é a necessária corrida ao trabalho, aos bens, ao consumo, aos horários implacáveis, aos transportes que não dormem. Nem se pode identificar sequer com os pequenos prazeres que nos damos, os lazeres, as viagens programadas, as recompensas disto e daquilo. O “ato gratuito” não tem preço: por definição, não se compra, nem se paga.
É sempre uma sede de liberdade que nos acorda para o gratuito. E não uma liberdade disto ou daquilo. Eu diria: é, antes, uma pura liberdade de ser, de sentir-se vivo; uma expansão da alma, não condicionada pela avareza das convenções; uma urgência não de dons, mas de dom.
(…)
No texto que li de Clarice Lispector ela conta: “Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?” perguntou ele. “O senhor não está entendendo”, expliquei-lhe “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro”. Não se porquê, olhou-me um instante com atenção.
Deixei abertas as vidraças do carro, que corria muito, e eu já começara minha liberdade deixando que um vento fortíssimo me desalinhasse os cabelos e me batesse no rosto grato de felicidade. Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver”.

                               In Nenhum Caminho Será Longo, págs. 133/134
                               José Tolentino Mendonça
             

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Herman Hesse dixit


Tumblr

Só ao envelhecermos nos damos conta da singularidade do belo e do milagre que efectivamente é quando entre as fábricas e os canhões também desabrocham flores e quando entre os jornais e boletins da bolsa ainda sobrevivem poemas.

                                                                                         in O elogio da velhice

terça-feira, 7 de maio de 2013

A poem a day keeps the doctor away

          É um pequeníssimo livro que compila doze poemas de amor de autores portugueses de diferentes épocas. Entre eles, Antero de Quental, com estas palavras certeiras. A M., que me ofereceu a colectânea há anos, mais uma vez, o meu muito obrigada!

The cool hunter

Amar! mas dum amor que tenha vida …
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida …

Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser – e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos –
Mas amor … dos amores que têm vida …

Sim, vivo e quente! E já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa de vaga fantasia…

Nem murchará do sol à chama erguida …
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores … se têm vida?

            Antero de Quental, in Doze poemas de amor, Coleccção Centauro, Guimarães Editora, 2009 

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A estante dos outros (VIII)

O convidado de hoje é o meu amigo Pedro Roque. Formado em Direito, magistrado do Ministério Público, com trinta e três anos, as suas escolhas são reveladoras da pessoa que é, segura de si e com múltiplos interesses. Estante (real) não há, mas as preferências literárias do Pedro são ilustradas, por escolha do próprio, com Amadeo Souza Cardoso.





1. Qual é a tua primeira recordação literária?

Tenho muita dificuldade em responder a isto. Cresci numa casa onde sempre houve livros. Não eram todos obras-primas de grandes mestres da literatura portuguesa e internacional.  Desde pequeno que me habituei a ver estantes ocuparem paredes inteiras com tais “monstros” da literatura a conviver pacificamente com infindos exemplares da colecção Vampiro e de ficção científica da Europa-América (que o meu pai lia compulsivamente), e com centenas de bandas-desenhadas da Disney (que eu adorava ler e organizar). E, claro, na parte que me era adstrita, inúmeros exemplares de “Uma aventura” e de “O Clube das chaves”.
Recordo-me de ler, demasiado novo, coisas como “O fio da navalha”, do Somerset Maugham, o “Brave New World”, do Aldous Huxley, o “Ilhas na corrente”, do Hemingway, e outros que tais. Digo que o fiz demasiado novo, porque, olhando para trás, tenho perfeita noção de que não tinha inteligência, teórica e emocional, para perceber o alcance das histórias que me estavam a ser contadas e a mestria da escrita com que eram relatadas.
2. Indica três livros que o/a tenham marcado e porquê.

- O Diário de Anne Frank: Porque, para além do drama humano de incrível intensidade que me permitiu viver, me mostrou que a vida pode ser encarada de duas formas diametralmente diferentes: Uma optimista, em que se anseia por e se projectam coisas boas para o futuro, assim contribuindo para as tornar mais possíveis (a de Anne Frank) e uma pessimista, em que se prevê o pior, sem desilusões quando as nossas piores expectativas são confirmadas (a da mãe de Anne Frank). Confesso que já flutuei entre as duas formas de estar. Como se costuma dizer, é conforme…
- “Vendidas!”, de Zana Muhsen: Porque, nessa altura, desconhecia a dimensão de desumanização a que eram sujeitas as mulheres de alguns árabes e me impressionou profundamente até onde pode ir a crueldade humana para com as pessoas que (supostamente) são nossa família. Impressionou-me especialmente porque cresci à sombra de uma mulher muito forte e independente e percebi que isso só assim era porque tinha tido a sorte de ter nascido neste e, não noutro, país.
- “As cruzadas vistas pelos árabes”, de Amin Maalouf: Também não estava à espera de ver um livro sobre História nesta resposta, mas cá está ele. Foi dos primeiros livros que me ensinou que, enquanto interessado em História, há que ter muita cautela com os relatos sobre os quais escolhemos construir a versão dos factos que damos como real.  Mais me ensinou que tais cautelas se impõem em muitos outros domínios.
 3. Tens um hábito ou ritual de leitura? 
Nem por isso. E tenho pena. Talvez por isso goste de me “vingar” nas férias, em que leio três ou quatro livros “maçudos” no Verão. São as consequências de passar muitas horas por dia a ler textos profundamente desinteressantes ou deprimentes.
4. Qual o livro que não lerias nem que te pagassem o teu peso em ouro?

“Cortar a Direito – Uma Vida Americana”, da Sarah Palin porque a tolerância à estupidez, à ignorância e ao preconceito tem limite. E procuro que ocupe uma quota muito pequena do meu tempo.
5. Se tivesses três meses de folga, sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias para ler?

A Bíblia e o Corão, pois gostava de poder afirmar que já li as obras que definem, de forma significativa, a cultura e a História de 2/3 do mundo. Para desanuviar, alguma banda desenhada (Lucky Luke, Asterix, Akira, Blacksad, qualquer coisa de Enki Bilal, …), romances históricos (como os de Gore Vidal e de Steven Saylor) e alguns de ficção científica.
Com uma mala assim recheada, uma rede na praia e gin tónico ao lado, seriam três meses bem passados.
6. O que estás a ler agora?

Partindo de um conceito lato de “ler” (que corresponde aos livros que tenho na mesa de cabeceira, cuja leitura já comecei e vou interrompendo temporariamente), estou a ler:
-     “O Banco – Como a Goldman Sachs Dirige o Mundo”, de Marc Roche (porque se há um banco a dirigir a minha vida, é sempre importante saber como);
-     “Uma História de Deus”, da Karen Armstrong (mesmo sendo ateu, é um tema que me desperta imensa curiosidade);
-     “Os Segredos da Maçonaria Portuguesa”, de António José Vilela (sou profundamente adepto da transparência e do escrutínio público das decisões que afectam os portugueses. Acho mesmo que nos debatemos, culturalmente, com um deficit enorme nessa matéria. E só conhecendo as zonas obscuras do poder podemos perceber como as contrariar);
-     E, para aliviar, “The Walking Dead”, de Robert Kirkman (a banda desenhada original é excelente e, como conseguiram também transmitir na série, torna-se impressionante ver as reacções de pessoas normais em situações absolutamente limite, e como os valores da educação, solidariedade e respeito que damos por adquirida no nosso dia-a-dia, voam pela janela tão facilmente).