quinta-feira, 2 de maio de 2013

A estante dos outros (VIII)

O convidado de hoje é o meu amigo Pedro Roque. Formado em Direito, magistrado do Ministério Público, com trinta e três anos, as suas escolhas são reveladoras da pessoa que é, segura de si e com múltiplos interesses. Estante (real) não há, mas as preferências literárias do Pedro são ilustradas, por escolha do próprio, com Amadeo Souza Cardoso.





1. Qual é a tua primeira recordação literária?

Tenho muita dificuldade em responder a isto. Cresci numa casa onde sempre houve livros. Não eram todos obras-primas de grandes mestres da literatura portuguesa e internacional.  Desde pequeno que me habituei a ver estantes ocuparem paredes inteiras com tais “monstros” da literatura a conviver pacificamente com infindos exemplares da colecção Vampiro e de ficção científica da Europa-América (que o meu pai lia compulsivamente), e com centenas de bandas-desenhadas da Disney (que eu adorava ler e organizar). E, claro, na parte que me era adstrita, inúmeros exemplares de “Uma aventura” e de “O Clube das chaves”.
Recordo-me de ler, demasiado novo, coisas como “O fio da navalha”, do Somerset Maugham, o “Brave New World”, do Aldous Huxley, o “Ilhas na corrente”, do Hemingway, e outros que tais. Digo que o fiz demasiado novo, porque, olhando para trás, tenho perfeita noção de que não tinha inteligência, teórica e emocional, para perceber o alcance das histórias que me estavam a ser contadas e a mestria da escrita com que eram relatadas.
2. Indica três livros que o/a tenham marcado e porquê.

- O Diário de Anne Frank: Porque, para além do drama humano de incrível intensidade que me permitiu viver, me mostrou que a vida pode ser encarada de duas formas diametralmente diferentes: Uma optimista, em que se anseia por e se projectam coisas boas para o futuro, assim contribuindo para as tornar mais possíveis (a de Anne Frank) e uma pessimista, em que se prevê o pior, sem desilusões quando as nossas piores expectativas são confirmadas (a da mãe de Anne Frank). Confesso que já flutuei entre as duas formas de estar. Como se costuma dizer, é conforme…
- “Vendidas!”, de Zana Muhsen: Porque, nessa altura, desconhecia a dimensão de desumanização a que eram sujeitas as mulheres de alguns árabes e me impressionou profundamente até onde pode ir a crueldade humana para com as pessoas que (supostamente) são nossa família. Impressionou-me especialmente porque cresci à sombra de uma mulher muito forte e independente e percebi que isso só assim era porque tinha tido a sorte de ter nascido neste e, não noutro, país.
- “As cruzadas vistas pelos árabes”, de Amin Maalouf: Também não estava à espera de ver um livro sobre História nesta resposta, mas cá está ele. Foi dos primeiros livros que me ensinou que, enquanto interessado em História, há que ter muita cautela com os relatos sobre os quais escolhemos construir a versão dos factos que damos como real.  Mais me ensinou que tais cautelas se impõem em muitos outros domínios.
 3. Tens um hábito ou ritual de leitura? 
Nem por isso. E tenho pena. Talvez por isso goste de me “vingar” nas férias, em que leio três ou quatro livros “maçudos” no Verão. São as consequências de passar muitas horas por dia a ler textos profundamente desinteressantes ou deprimentes.
4. Qual o livro que não lerias nem que te pagassem o teu peso em ouro?

“Cortar a Direito – Uma Vida Americana”, da Sarah Palin porque a tolerância à estupidez, à ignorância e ao preconceito tem limite. E procuro que ocupe uma quota muito pequena do meu tempo.
5. Se tivesses três meses de folga, sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias para ler?

A Bíblia e o Corão, pois gostava de poder afirmar que já li as obras que definem, de forma significativa, a cultura e a História de 2/3 do mundo. Para desanuviar, alguma banda desenhada (Lucky Luke, Asterix, Akira, Blacksad, qualquer coisa de Enki Bilal, …), romances históricos (como os de Gore Vidal e de Steven Saylor) e alguns de ficção científica.
Com uma mala assim recheada, uma rede na praia e gin tónico ao lado, seriam três meses bem passados.
6. O que estás a ler agora?

Partindo de um conceito lato de “ler” (que corresponde aos livros que tenho na mesa de cabeceira, cuja leitura já comecei e vou interrompendo temporariamente), estou a ler:
-     “O Banco – Como a Goldman Sachs Dirige o Mundo”, de Marc Roche (porque se há um banco a dirigir a minha vida, é sempre importante saber como);
-     “Uma História de Deus”, da Karen Armstrong (mesmo sendo ateu, é um tema que me desperta imensa curiosidade);
-     “Os Segredos da Maçonaria Portuguesa”, de António José Vilela (sou profundamente adepto da transparência e do escrutínio público das decisões que afectam os portugueses. Acho mesmo que nos debatemos, culturalmente, com um deficit enorme nessa matéria. E só conhecendo as zonas obscuras do poder podemos perceber como as contrariar);
-     E, para aliviar, “The Walking Dead”, de Robert Kirkman (a banda desenhada original é excelente e, como conseguiram também transmitir na série, torna-se impressionante ver as reacções de pessoas normais em situações absolutamente limite, e como os valores da educação, solidariedade e respeito que damos por adquirida no nosso dia-a-dia, voam pela janela tão facilmente).

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