segunda-feira, 13 de maio de 2013

O elogio do gratuito






"Li uma vez e não me sai da cabeça um texto da escritora Clarice Lispector sobre esse improviso que salva a vida: ela chama-lhe acertadamente o “ato gratuito”. Talvez se deva começar por explicar aquilo que o ato gratuito não é. Ele não é mais uma estação ofegante luta pela vida que é. Ele não é mais um estação da ofegante luta pela vida que quotidianamente nos traz mobilizados. Ele não é a necessária corrida ao trabalho, aos bens, ao consumo, aos horários implacáveis, aos transportes que não dormem. Nem se pode identificar sequer com os pequenos prazeres que nos damos, os lazeres, as viagens programadas, as recompensas disto e daquilo. O “ato gratuito” não tem preço: por definição, não se compra, nem se paga.
É sempre uma sede de liberdade que nos acorda para o gratuito. E não uma liberdade disto ou daquilo. Eu diria: é, antes, uma pura liberdade de ser, de sentir-se vivo; uma expansão da alma, não condicionada pela avareza das convenções; uma urgência não de dons, mas de dom.
(…)
No texto que li de Clarice Lispector ela conta: “Eram 2 horas da tarde de verão. Interrompi meu trabalho, mudei rapidamente de roupa, desci, tomei um táxi que passava e disse ao chofer: vamos ao Jardim Botânico. “Que rua?” perguntou ele. “O senhor não está entendendo”, expliquei-lhe “não quero ir ao bairro e sim ao Jardim do bairro”. Não se porquê, olhou-me um instante com atenção.
Deixei abertas as vidraças do carro, que corria muito, e eu já começara minha liberdade deixando que um vento fortíssimo me desalinhasse os cabelos e me batesse no rosto grato de felicidade. Eu ia ao Jardim Botânico para quê? Só para olhar. Só para ver. Só para sentir. Só para viver”.

                               In Nenhum Caminho Será Longo, págs. 133/134
                               José Tolentino Mendonça
             

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