sexta-feira, 28 de junho de 2013

Calendário Literário


A Flavorwire publicou um calendário literário da autoria de Emily Temple. Não é composto apenas de grande acontecimentos, mas também de pequenos episódios do mundo dos livros e da vida dos escritores. Para preencher os 365 dias que compõem o calendário surgem acontecimentos tão diversos como a publicação de primeira edições, nascimentos, mortes, casamentos, lutas, fracassos monumentais e fugas. No mesmo de Junho, por exemplo, encontramos o aparecimento de Garfield (1978), os nascimentos de Pushkin e  de Sartre (1799 e 1905, respectivamente) e o nascimento do herói do Crepúsculo, Edward Cullen (1901). Tudo isso e muito mais pode ser descoberto aqui.







A poem a day keeps the doctor away - Jorge de Sena

Jorge de Sena foi um dos grandes poetas de língua portuguesa. À semelhança de outros escritores do século XX, como Ferreira de Castro e Rodrigues Miguéis, está hoje um pouco esquecido. E, no entanto, as palavras que nos deixou são intemporais. Como as do poema “Isto” sobre o tanto que é vida e o tão pouco que a sentimos.

Não queiras, não perguntes, não esperes.
Isto que passa como vida e tu
medes em dias, horas e minutos,
ou como tempo passa e vais medindo
em rugas e lembranças e em sombrias
e plácidas visões de coisa alguma,
às vezes sorridentes, mas sombrias;
sim: isto, a que dás nomes, que separas
do resto em que surgiu, de que surgiu:
isto, que já não queres, não interrogas,
de que já nada esperas, mas que queres,
por que perguntas sempre, e por que esperas;
isto, que não és tu, nem vai contigo,
nem fica quando vais; em que não pensas,
porque ao medir apenas medes e
nada mais fazes que medir – só isto,
apenas isto, isto unicamente
não queiras, não perguntes, não esperes,
que o pouco ou muito é tudo o que te resta.

                                               in Poesia II, Edições 70

domingo, 23 de junho de 2013

A poem a day keeps a doctor away


Imagem retirada daqui

             São tantas as obras de arte que recorrem à lua como fonte de inspiração. Ela adensa o mistério, acentua a solidão, aguça os sentidos. Na literatura, encontramo-la em obras infantis (basta recordar Os cinco e o comboio fantasma), policiais (fiquemo-nos por um clássico, como Arthur Conan Foyle, com O Cão dos Baskervilles) e, claro, na produção poética.
           Quando penso na lua na literatura ocorre-me de imediato este poema de Cecília Meireles, “Lua Adversa”. Esperando que não seja o caso da que esta noite nos espera, deixo-o aqui, por ocasião da anunciada maior lua cheia de 2013.

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua …
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua …)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu …

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O discreto charme da leitura

Hoje já não parece que seja assim. Mas houve um tempo em que as grandes figuras de entretenimento faziam gosto em ser fotografadas rodeadas de livros. Muitos eram reconhecidos pelos seus atractivos físicos, tendo passado muito tempo a mostrar que eram mais do que caras bonitas. Para posteridade ficam fotografias de um tempo em que ser estrela de cinema era sinal de mistério, os vícios eram privados e as virtudes públicas. E os livros os companheiros ideais para uma fotografia.

Ava Gardner

Audrey Hepburn

Cary Grant



sexta-feira, 14 de junho de 2013

Meia-noite em Pequim, Paul French


Muralha da China

          Meia-noite em Pequim é a reconstituição de um crime real ocorrido na China em 1937. Numa madrugada de Janeiro desse ano Pamela Werner foi encontrada morta, com o corpo mutilado. O crime nunca foi desvendado oficialmente. Apesar da comoção internacional causada pelos factos, nem as autoridades chinesas, nem as inglesas apresentaram os responsáveis pela morte de Pamela, uma jovem estudante com cerca de 20 anos. Foi, pois, um crime sem castigo.
Paul French tomou conhecimento do caso ao ler a biografia de Edward Snow, um jornalista norte-americano que vivia em Pequim aquando da morte de Pamela Werner. French analisou os elementos que chegaram a ser recolhidos na investigação oficial e entrevistou ainda algumas pessoas que conheceram a vítima e os seus familiares. Para além disso, o autor do livro é também um conhecedor da história e dinâmicas sociais da China, o que é uma mais valia para o livro. No fim, French acolhe os resultados da investigação do pai da vítima, um funcionário inglês reformado que não se conformou com a falta de respostas para a morte da filha. E é com base nos elementos por ele recolhidos que são reconstituídas as últimas horas de Pamela Werner.
            O livro está escrito em forma de relato, não tendo praticamente diálogos. Na minha opinião falta alguma densidade psicológica na caracterização dos responsáveis pela investigação, Han e Dennis. São também reforçados princípios dos romances policiais: a convicção de que o homicídio é um crime em que, por regra, o agente conhece a vítima, por um lado. Mas também o de que nunca sabemos verdadeiramente quem são muitos daqueles que partilham connosco círculos sociais.
Para além de deslindar o mistério da morte de Pamela Werner, o aspecto mais interessante desta obra é a descrição que é feita sobre o quotidiano chinês, retratado de forma viva e cheia de detalhes. Transporta-nos para aquele país na década de 30 do século passado, acompanhando a agitação sócio-política inerente ao termo de uma época. Este facto, aliado ao interesse do caso, faz com que depois de começarmos a leitura seja difícil pôr o livro de lado.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A biblioteca ideal (parte II)

                  
Já está disponível a segunda parte da edição do Le nouvel observateur sobre a biblioteca ideal.
São agora apontadas obras de referência dos séculos XIX e XX. Sem grandes surpresas, mas com opções difíceis de afastar. Dostoiveski, Proust ou Fernando Pessoa são incontornáveis.  James Joyce a Tólstoi também. Já Vassilli Grossman (Vida e Destino) ou Hermann Melville (Moby Dick) são nomes de autores a reter para futuras leituras (de fôlego, atento o volume das respectivas obras). Uma boa notícia é a de que a lista se abriu finalmente às escritoras, colocando no seu devido lugar não só Marguerite Yourcenar ou Virgínia Woolf, mas também Marguerite Duras e Jane Austen.
Por outro lado, mantém-se uma certa predominância de autores europeus (sobretudo franceses) e norte-americanos. Da América Latina foi seleccionado Jorge Luís Borges e da literatura japonesa apenas merece referência Kawabata. De fora ficam, para analisar a questão apenas pela rama, Gabriel Garcia Marquez (já para não falar de Vargas Llosa) e Yukio Mishima. Além disso, só foram seleccionadas obras em prosa, deixando de fora o ensaio e a poesia, por exemplo. O que afastou outro nome essencial, o do indiano Rabindranath Tagore. Também não detectei nenhuma referência à literatura africana, nem mesmo Nadine Gordimer, laureada com o respectivo Nobel em 1991.
Ainda assim, vale a pena estar atento às opções desta revista. Com o Verão à porta (se bem que com pouca vontade de entrar) começa a ser tempo de pensar no clássico a eleger para estas férias. As escolhas ali apontadas são um bom ponto de partida.

     

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A estante dos outros (IX)


Hoje conhecemos as escolhas literárias de Joana Abreu Gonçalves. A Joana é arquitecta e fundadora, CEO e directora criativa da In the mood for sweets que pôs na rota dos gulosos e gulosas tentações gastronómicas como os cupcakes e os macarons. Hoje, essas experiências iniciais já estão ultrapassadas por novas iguarias inspiradas na tradição e na arte, em particular na literatura. Ou não fosse o mote da IMFS a frase de Fernando Pessoa “… as religiões todas não ensinam mais do que a confeitaria”.



A estante da Joana, na interpretação da mesma

1.    Qual é a tua primeira recordação literária?
 Acho que as minhas primeiras recordações devem ter sido da Biblioteca de Turma. Os livros de que mais me recordo são O meu pé de laranja lima, A pérola, O diário de Anne Frank. Antes destes também houve Os cinco e Uma aventura.

2.    Indica três livros que o/a tenham marcado e porquê.
- The catcher in the rye é um livro que releio de vez em quando. Acho que simplesmente podia sublinhar quase todas as frases que lá estão. É o retrato perfeito da adolescência: alienação, conflito …
- On the road. É um manifesto do que é ser livre, escrito de forma simples e despretensiosa.
- The great gatsby. É um retrato cínico dos anos 20 por Fitzgerald.

       3. Tens um hábito ou ritual de leitura?
        Não tenho nenhum ritual, mas ter uma caixa de bombons por perto é sempre boa ideia.

4.Qual o livro que não lerias nem que que pagassem o teu peso em ouro?
O “segredo” ou qualquer outro livro de auto-ajuda.

      5. Se tivesses três meses de folga, sem interrupções ou problemas de qualquer espécie, que livro (s) escolherias para ler?
     Relia The Catcher in the rye, Os Maias e a Servidão Humana. Tentava ler O Ulysses.

     6. O que estás a ler agora?
    “as esganadas” de Jô Soares.