sexta-feira, 28 de junho de 2013

A poem a day keeps the doctor away - Jorge de Sena

Jorge de Sena foi um dos grandes poetas de língua portuguesa. À semelhança de outros escritores do século XX, como Ferreira de Castro e Rodrigues Miguéis, está hoje um pouco esquecido. E, no entanto, as palavras que nos deixou são intemporais. Como as do poema “Isto” sobre o tanto que é vida e o tão pouco que a sentimos.

Não queiras, não perguntes, não esperes.
Isto que passa como vida e tu
medes em dias, horas e minutos,
ou como tempo passa e vais medindo
em rugas e lembranças e em sombrias
e plácidas visões de coisa alguma,
às vezes sorridentes, mas sombrias;
sim: isto, a que dás nomes, que separas
do resto em que surgiu, de que surgiu:
isto, que já não queres, não interrogas,
de que já nada esperas, mas que queres,
por que perguntas sempre, e por que esperas;
isto, que não és tu, nem vai contigo,
nem fica quando vais; em que não pensas,
porque ao medir apenas medes e
nada mais fazes que medir – só isto,
apenas isto, isto unicamente
não queiras, não perguntes, não esperes,
que o pouco ou muito é tudo o que te resta.

                                               in Poesia II, Edições 70

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