quinta-feira, 18 de julho de 2013

Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes, Mathias Énard


O autor deste livro nasceu em França, mas vive em Barcelona, onde ensina árabe. Escreveu já outras obras, sendo este o primeiro romance histórico.
O tema é a estadia de Miguel Ângelo em Constantinopla a convite do sultão Bayazid para construir uma ponte sobre o Corno de Ouro. O convite parece ter sido real. Mas não terá sido aceite. No entanto, Énard parte dessa aceitação para construir a sua história, juntando ficção e realidade. Os leitores mais rigorosos com a construção histórica podem sentir aqui reservas. Mas, para mim, a partir de determinado momento a narrativa ganha tal interesse que saber se Miguel Ângelo esteve ou não em Constantinopla perde relevo.
Parece-me bem mais interessante seguir as dúvidas, encantos e frustrações do trabalho artístico, que este livro tão bem retrata. Mas, o aspecto que mais me cativou no livro foi a construção da humanidade de Miguel Ângelo. Atormentado com o facto de ter sido a segunda escolha do sultão (a primeiro foi Leonardo da Vinci que recusou o convite) e ressentido com o poder, por ver que para Bayazid, como para o Papa Júlio II (com quem se zangou) é, não tanto um artista, mas acima de tudo um serviçal. E recusando-se a viver a paixão que lhe adivinhamos ao longo do livro. É nesses momentos que sentimos que, tendo sido um grande artista cuja obra sobreviveu ao tempo, Miguel Ângelo foi também um ser humano como nós. Com alegrias, dúvidas, tristezas, raivas e frustrações. E isso, que pode parecer evidente, é muito difícil de transmitir com a clareza e precisão com que Énard o faz. Tão bem que quase parece fácil.
Deixo o link para uma entrevista com o escritor que gostei bastante de ler (aqui)
             



segunda-feira, 15 de julho de 2013

O consolo de Eça de Queirós



Não há como o teatro contemporâneo para semear em nós um estado dubitativo, entre a angústia e a perplexidade. Enquanto assistia à dança furiosa que a actriz nua levava a cabo no palco ao som de música muitos decibéis acima do necessário, interroguei-me: estará a peça repleta de códigos e referências culturais que não alcanço? Ou será este o derradeiro lugar-comum (o de evitar todos os lugares-comuns)? Ambas as situações? Nenhuma delas? Até ao momento, não sei.
Sei sim que, após cinco horas de espectáculo moderno ou pós-moderno, cheguei a casa com um desejo por algo seguro e conhecido. Tradução: apetecia-me comer gelado de morango e nata e ler Eça de Queirós.
Felizmente, o congelador e a estante estão devidamente aprovisionados. Terminei a noite a reler A Tragédia da Rua das Flores, um romance póstumo de Eça de Queirós. A acção deste livro inicia-se também no teatro, mais precisamente no Teatro da Trindade. É aí que Victor, Dâmaso e Genoveva se vêem pela primeira vez. Para além de ser uma história de amor, A Tragédia da Rua das Flores é uma crítica social desenhada sem dó, nem piedade. É também um exemplo do fatalismo português. O passado não fica lá atrás, volta para ajustar contas.
Todas as personagens são anti-heróis. Genoveva é uma ambiciosa dominada pelo egoísmo, Victor está mergulhado na inacção travestida de tédio romântico e Dâmaso é prosaico e vaidoso. As figuras secundárias não fogem deste retrato. Jornalistas sem ética, deputados sem ideais, escritores sem inspiração e pintores que não conseguem decidir a que escola querem pertencer. O amor não é salvação para nenhum deles. Talvez porque Eça, um sonhador apesar da racionalidade e frieza com que se apresentava, soubesse que o amor só salva os corajosos. E se há algo que une estas personagens é a sua cobardia existencial. A amargura do retrato é salva pelo humor queirosiano. Uma das cenas mais hilariantes é precisamente a que descreve o retorno de Dâmaso a casa de Genoveva, depois de uma prestação ruinosa ao jantar e de ter largado os derradeiros três contos de reis:
“(…)
Ao chegar a portaria de Genoveva puxou rapidamente o cordão da campainha. Não sentiu nenhum som. Esperou, sacudiu a corda violentamente. Nada tilintou.
“Caiu-lhe o badalo” – pensou furioso.
Agachou, colou o ouvido à porta; havia um silêncio escuro e adormecido.
- E esta!
Deu em puxar, desesperado, o cordão: nada. Bateu com os nos dos dedos, impaciente. Sentia no silêncio bater-lhe o coração. Relâmpagos alumiavam, de repente, a escada; trovões estalavam, com um estampido despedaçante, por cima do telhado. Desesperou-se e com o punho fechado esmurrou a cancela; sacudiu-a; a lingueta tremia na fechadura, aos sacões frenético. Dentro, um silêncio impassível. Pensou que a trovoada impedia que ouvissem. E num intervalo entre gotas de chuva baterem numa clarabóia, atirou a ponta do sapato contra a porta. A violência do ruído assustou-o e a sua covardia acanhou-se diante do escândalo. Chamou pela criada:
- Mélanie! Mélanie!
(…)
Dâmaso estava frio, tinha um vago susto, um desespero, uma desconfiança.
“Aqui há maroteira …” e numa raiva, abalou a porta, com pancadas formidáveis dos tacões. Nada.
(…)
Pôs-se a correr, sob as cordas de água que caíam, até ao largo de Camões; não encontrou nenhuma carruagem. Furioso, meio alucinado de raiva, veio à Rua de S. Francisco; o Grémio estava fechado; “tudo se conjura contra mim!” – rosnou com uma raiva colérica.
Desceu o Rossio. Nem uma tipóia. E a chuva caía em torrentes grossas; as enchentes sussurravam e as luzes dos candeeiros viam-se através de uma névoa espessa e com feitios riscados de fios luminosos de água. Tinha quase as lágrimas nos olhos. Foi subir para casa; tinha as meias de seda molhadas; as abas da casaca de cetim deformadas pela chuva, entravam-lhe agora no pescoço; arfava, cansado, suando sob a frialdade, enturvando-se em fúrias ao atravessar o Mercado; sentia as canelas trespassadas do molhado; com lágrimas na garganta, amaldiçoando Genoveva, chamando-lhe os nomes mais obscenos, imaginando vingança, num frenesim aflito … (esteve ainda a dar argoladas na porta, meia hora) e, quando o criado, estremunhado, veio abrir a porta, rompeu pela escada, grunhindo injúrias e obscenidades.”
E as desventuras de Dâmaso, sem uma linha de pós-modernidade, estão longe de terminar aqui.




quinta-feira, 11 de julho de 2013

A poem a day keeps the doctor away - Jorge Luís Borges

           Depois de uma semana de inquietude, o fim-de-semana foi passado a tentar debelar os efeitos da canícula que tomou conta do país. Por mim, protegida por uma ventoinha a funcionar em velocidade máxima, levei a cabo mais uma aproximação à obra de Jorge Luís Borges. Grande leitor, a sua escrita é imaginativa e sensível, espalhando-se por ficção, poesia e ensaios. Tudo escrito com apelo a referências culturais de vários pontos do mundo e sem prejuízo de uma aparente simplicidade.
Ontem, encontrei este poema, Os justos:
Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

                                                           Obras completas, volume III, pág. 340.


  

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Num lugar solitário, Ana Teresa Pereira

Há temas que surgem com frequência em todas as tradições literárias. Um deles, reflexo, talvez, da nossa vontade de sermos únicos, tem por base a figura do duplo que cada um de nós pode ter. Dostoievsky escreveu uma novela com esse título e também Saramago imaginou O homem duplicado.
            O duplo e até que ponto a consciência da existência do mesmo nos impede de nos desenvolvermos e tornarmos quem somos é o tema central deste livro de Ana Teresa Pereira. A narrativa é atravessada por uma história de amor que, como é habitual nesta escritora, tem tanto de encantadora como de difícil.
Os protagonistas, Tom e Patrícia (ou Isabel) são-nos apresentados como os dois pólos de uma relação terapêutica que acaba por extravasar esses limites. Mais importante do que a sucessão dos acontecimentos são as emoções vividas pelas personagens à medida que ultrapassam barreiras e se unem. O universo de Ana Teresa Pereira envolve toda a história, convocando velhos filmes e poemas de Rilke, numa história cheia de enigmas e que não se compadece com interpretações unívocas. Por mim, como gosto muito desta escritora, as dúvidas com que as personagens me deixam são bem vindas e largamente compensadas pelo gosto de mergulhar nas suas histórias.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

A estante dos outros (X)



Manet


         A estante do mês de Julho (também virtual) é ocupada com as escolhas literárias de João Ferreira. Licenciado em Direito e com uma longa carreira nessa área, as suas opções  reflectem o seu interesse contínuo sobre as raízes da natureza humana, o Bem e o Mal.    
      Para as ilustrar, deixo um quadro de Manet, o pintor favorito do João.

1. A primeira recordação literária que tenho é de livros sobre os nazis. Deixei-me fascinar pela maldade humana.

2. Muitos livros me marcaram, mas indico-te três um pouco ao acaso : "D. Quixote" porque é um divertido e fiel retrato da condição humana, condição na qual a realidade é vista através do véu de Maya, gerador de todas as ilusões, e que aqui é levada ao extremo da loucura. "Cartas a Lucílio", de Séneca por me dar a ver os benefícios da virtude. E "Aurora" de Nietzsche por me mostrar os malefícios da virtude.

3. Leio diariamente desde os 13 anos.

4. Não leria O Memorial do Convento.

5. Com três meses de férias, talvez lesse os "Essais" de Montaigne.

6. Estou a ler vários livros ao mesmo tempo: "O Idiota", do Dostoievsky, que nos dá o retrato de como é visto e tratado em sociedade um tipo que é bondoso e sincero. "O Mal Estar da Civilização", de Freud, que pretende demonstrar como a civilização nos torna infelizes por termos de reprimir os nossos instintos e afastarmo-nos da nossa natureza para vivermos em sociedade, e as consequências que isso tem ao nível do comportamento.. E "The Spanish Holocaust", do historiador inglês Paul Preston, sobre o extermínio levado a cabo à esquerda e à direita na guerra civil espanhola.