segunda-feira, 15 de julho de 2013

O consolo de Eça de Queirós



Não há como o teatro contemporâneo para semear em nós um estado dubitativo, entre a angústia e a perplexidade. Enquanto assistia à dança furiosa que a actriz nua levava a cabo no palco ao som de música muitos decibéis acima do necessário, interroguei-me: estará a peça repleta de códigos e referências culturais que não alcanço? Ou será este o derradeiro lugar-comum (o de evitar todos os lugares-comuns)? Ambas as situações? Nenhuma delas? Até ao momento, não sei.
Sei sim que, após cinco horas de espectáculo moderno ou pós-moderno, cheguei a casa com um desejo por algo seguro e conhecido. Tradução: apetecia-me comer gelado de morango e nata e ler Eça de Queirós.
Felizmente, o congelador e a estante estão devidamente aprovisionados. Terminei a noite a reler A Tragédia da Rua das Flores, um romance póstumo de Eça de Queirós. A acção deste livro inicia-se também no teatro, mais precisamente no Teatro da Trindade. É aí que Victor, Dâmaso e Genoveva se vêem pela primeira vez. Para além de ser uma história de amor, A Tragédia da Rua das Flores é uma crítica social desenhada sem dó, nem piedade. É também um exemplo do fatalismo português. O passado não fica lá atrás, volta para ajustar contas.
Todas as personagens são anti-heróis. Genoveva é uma ambiciosa dominada pelo egoísmo, Victor está mergulhado na inacção travestida de tédio romântico e Dâmaso é prosaico e vaidoso. As figuras secundárias não fogem deste retrato. Jornalistas sem ética, deputados sem ideais, escritores sem inspiração e pintores que não conseguem decidir a que escola querem pertencer. O amor não é salvação para nenhum deles. Talvez porque Eça, um sonhador apesar da racionalidade e frieza com que se apresentava, soubesse que o amor só salva os corajosos. E se há algo que une estas personagens é a sua cobardia existencial. A amargura do retrato é salva pelo humor queirosiano. Uma das cenas mais hilariantes é precisamente a que descreve o retorno de Dâmaso a casa de Genoveva, depois de uma prestação ruinosa ao jantar e de ter largado os derradeiros três contos de reis:
“(…)
Ao chegar a portaria de Genoveva puxou rapidamente o cordão da campainha. Não sentiu nenhum som. Esperou, sacudiu a corda violentamente. Nada tilintou.
“Caiu-lhe o badalo” – pensou furioso.
Agachou, colou o ouvido à porta; havia um silêncio escuro e adormecido.
- E esta!
Deu em puxar, desesperado, o cordão: nada. Bateu com os nos dos dedos, impaciente. Sentia no silêncio bater-lhe o coração. Relâmpagos alumiavam, de repente, a escada; trovões estalavam, com um estampido despedaçante, por cima do telhado. Desesperou-se e com o punho fechado esmurrou a cancela; sacudiu-a; a lingueta tremia na fechadura, aos sacões frenético. Dentro, um silêncio impassível. Pensou que a trovoada impedia que ouvissem. E num intervalo entre gotas de chuva baterem numa clarabóia, atirou a ponta do sapato contra a porta. A violência do ruído assustou-o e a sua covardia acanhou-se diante do escândalo. Chamou pela criada:
- Mélanie! Mélanie!
(…)
Dâmaso estava frio, tinha um vago susto, um desespero, uma desconfiança.
“Aqui há maroteira …” e numa raiva, abalou a porta, com pancadas formidáveis dos tacões. Nada.
(…)
Pôs-se a correr, sob as cordas de água que caíam, até ao largo de Camões; não encontrou nenhuma carruagem. Furioso, meio alucinado de raiva, veio à Rua de S. Francisco; o Grémio estava fechado; “tudo se conjura contra mim!” – rosnou com uma raiva colérica.
Desceu o Rossio. Nem uma tipóia. E a chuva caía em torrentes grossas; as enchentes sussurravam e as luzes dos candeeiros viam-se através de uma névoa espessa e com feitios riscados de fios luminosos de água. Tinha quase as lágrimas nos olhos. Foi subir para casa; tinha as meias de seda molhadas; as abas da casaca de cetim deformadas pela chuva, entravam-lhe agora no pescoço; arfava, cansado, suando sob a frialdade, enturvando-se em fúrias ao atravessar o Mercado; sentia as canelas trespassadas do molhado; com lágrimas na garganta, amaldiçoando Genoveva, chamando-lhe os nomes mais obscenos, imaginando vingança, num frenesim aflito … (esteve ainda a dar argoladas na porta, meia hora) e, quando o criado, estremunhado, veio abrir a porta, rompeu pela escada, grunhindo injúrias e obscenidades.”
E as desventuras de Dâmaso, sem uma linha de pós-modernidade, estão longe de terminar aqui.




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