sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Liberdade, Jonathan Franzen

Fílon de Alexandria disse qualquer coisa como “Sê gentil; todos os que encontras na vida estão a travar uma grande batalha.” Gosto muito desta frase e foi dela que me lembrei quando terminei a leitura de Liberdade. Um livro sobre a vida como ela é. E se viver o dia-a-dia é difícil descrevê-lo de modo a manter o interesse do leitor ao longo de quase 700 páginas também não é tarefa fácil. Mas é isso mesmo que Franzen faz. Porque escreve mesmo muito bem.
A acção de Liberdade desenrola-se na actualidade. Apesar de este ser um livro implantado na realidade norte-americana, esse aspecto em nada prejudica a sua leitura. Por um lado, porque os grandes temas que o atravessam são comuns às sociedades ocidentais dos dias de hoje. Por outro lado, porque devido à globalização, a cultura norte-americana é conhecida da generalidade dos leitores. É o que sucede com alguns aspectos da vida universitária e os clássicos subúrbios da classe média-alta, onde decorrem vários capítulos deste livro. Por outro lado, a tradução portuguesa oferece algumas notas de rodapé que também são úteis à leitura.
Os protagonistas da obra são Sally e Walter Berglund. Conhecem-se na faculdade e casam sendo o típico casal da classe média. Mas já se sabe que quando pomos de lado os estereótipos e as ideias feitas, são poucas as pessoas como podem definir-se como “típicas”. Todos têm os seus traços próprios e a sua história. Um passado e projectos para o futuro. E é isso que Frazen demonstra oferecendo-nos um retrato da vida dos seus protagonistas.
O autor dá-nos a conhecer o percurso individual de cada um deles até ao dia em que se encontram. É destas duas pessoas e das relações que estabelecem entre si, com os respectivos progenitores, filhos (Joey e Jessica), amigos (em particular, Richard Katz) e vizinhos que se compõe este livro. Não há um acontecimento que possa considerar-se como sendo o centro da acção. E nenhuma das personagens do livro é completamente boa ou má. Todas têm qualidades e defeitos, o que as aproxima do leitor. Mesmo que a nossa vida seja em concreto muito diversa da que é descrita é impossível não sentirmos que Sally e Walter podiam ser nossos amigos. O escritor faz das personagens pessoas como nós. Vamos acompanhando as suas vidas: o casamento, a parentalidade, a vida profissional (ou falta dela), as exigências da vida na sociedade contemporânea, as alegrias, as tristezas, a rivalidade entre amigos apesar de amizade, as paixões, os amores, as conquistas do dia-a-dia e as frustrações e perdas com que temos de viver porque não há outro remédio.
Franzen é natural dos Estados Unidos onde nasceu a 17 de Agosto de 1959. Antes de Liberdade publicou outras obras, assumindo particular destaque As Correcções (2001). É considerado um dos maiores romancistas da actualidade. E depois de se ler Liberdade percebe-se porquê.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Dedicatórias

        Quando compro livros em segunda mão, uma das coisas que me impressiona são as dedicatórias que lá encontro. De amigos, familiares, apaixonados, relações de uma vida ou encontros casuais. Encantam-me e ao mesmo tempo entristecem-me.
Até percebo que se vendam ou dêem livros que já não nos interessam. Mas desfazer-me de um livro com dedicatória parece-me ser como mostrar uma parte íntima de mim a quem não me conhece. Mesmo em relação a dedicatórias escritas por quem já não faz parte da minha vida, seja de forma voluntária (poucas, diga-se), seja porque a morte as levou. Mas, se me fosse desfazer dos livros onde estão creio que primeiro teria de retirar-lhes a folha onde se encontram (uma lesão livresca também polémica, admito). Por via das dúvidas, mantenho os livros comigo. Escusado será dizer que se encontrasse à venda num alfarrabista um livro com uma dedicatória escrita por mim por um terceiro, interpretaria isso como uma espécie de “the end” para a nossa relação.
O blogue Dedicated to dedica-se precisamente a comentar dedicatórias. Através dele, constatamos não só a diversidade daquelas, mas também a variedade de livros onde são inscritas, celebrando um amor, uma amizade ou um dia especial.  
Vale a pena espreitar (aqui ).

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Arco-Íris, Banana Yoshimoto

Gauguin

Yoshimoto é uma das escritoras japonesas mais conhecidas no Ocidente. Este pequeno livro tem como protagonista Eiko, uma jovem japonesa amargurada pelas sucessivas perdas familiares. O seu porto de abrigo é o restaurante taitiano onde trabalha. Ali, não só se sente reconhecida do ponto de vista profissional, como estabelece relacionamentos de amizade que lhe faltam fora do local de trabalho.
Eiko decide ir de férias e escolhe como destino … o Taiti, local onde o seu patrão (Tanaka) se inspirou para criar o restaurante que tem em Tóquio.
No século XIX, Gauguin refugiou-se no Taiti, abandonando a vida que construíra em França. Iniciou então a sua fase produtiva mais conhecida, com quadros retratando a vida indígena daquele região. Também Yoshimoto nos apresenta o Taiti como um paraíso na Terra. Descreve de forma encantadora e encantada a fauna e flora do local (em especial a submarina), bem como a simpatia e disponibilidade dos autóctones.
A personagem principal sente o contraste entre Tóquio onde (com excepção do restaurante onde trabalha) não tem grandes laços ou fontes de alegria e o Taiti. O livro vai-nos dando a conhecer a história de amor de Eiko e o modo como a mesma se foi desenvolvendo, tendo na natureza os primeiros elementos que permitiram adivinhar uma aproximação do seu apaixonado. E é também naquela região que encontra a clareza de pensamento e coragem para tomar uma decisão quanto àquele.  
 Quando se termina a leitura do livro há a tentação de ver a narrativa como um pouco cândida. Mas, pela minha parte, penso que se há algo que faz falta neste mundo é um bocadinho de ingenuidade.



quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sobre a Amizade - Marguerite Yourcenar

A amizade, como o amor do qual participa, exige quase tanta arte como uma figura de dança bem conseguida. É preciso um grande entusiasmo e uma grande contenção, muitas trocas de palavras e muito silêncio. E, sobretudo, muito respeito.

                                               In, De olhos abertos, pág. 261

terça-feira, 20 de agosto de 2013

A Sedução, Elisabeth Jane Howard

All is fair in love and war é um lugar comum que todos nos habituámos a ouvir. E de entre as coisas que o amor torna justas está a preocupação de cada apaixonado em mostrar o melhor de si.
No livro Sedução de Elisabeth Jane Howard assistimos a esse processo com uma nota desviante: o protagonista Henry Kent não está apaixonado. Procura antes fazer-se amar. A escolhida é Daisy Langrish, uma escritora abalada por dois divórcios e desiludida com as questões amorosas. Nada que enfraqueça a auto-confiança de Henry.
A narrativa é feita a duas vozes. A de Henry Kent na primeira pessoa e a de Daisy através de um narrador exógeno, que se vão intercalando. Há ainda outras personagens com carácter secundário mas que acabam por ter um papel essencial no desenlace da narrativa.
A acção é fluída, não existindo monotonia. A escrita de Howard é cheia de detalhes, descrições minuciosas de paisagens e cenas quotidianas. Mas toda a acção exterior serve aquele que é o aspecto mais interessante do livro: permitir-nos entrar na mente de Henry Kent cujos traços perpassam todo o livro.
Sedução é essencialmente um romance psicológico. Sendo uma obra de ficção, Henry Kent é, num primeiro momento, tão normal que poderia ser alguém do nosso círculo social. E ao mesmo tempo vai-se revelando frio, calculista e metódico na aproximação que faz a Daisy Langrish, sopesando cada palavra e gesto que lhe dirige, tendo em vista a concretização do seu objectivo final. É isso que torna a leitura deste livro perturbante.
O aspecto menos conseguido, a meu ver, é o final. É realista e, nesse aspecto, o facto de não ser surpreendente, só por si, não me parece que desiluda. Contudo, face à dinâmica e extensão da narrativa o desenlace é demasiado rápido. O momento em que Daisy começa a perceber a verdadeira personalidade de Henry e aquele em que obtém certezas quanto à mesma parece-me brusco, face ao modo como a acção tinha sido até aí conduzida até aí.
Tal facto não retira, porém, o interesse da leitura deste livro. O tema central acaba por ser a confiança que depositamos nos outros e como reagir quando a mesma é abalada. Vislumbra-se o reconhecimento da capacidade de regeneração do ser humano e o valor inestimável da amizade.
Elisabeth Jane Howard é inglesa e nasceu a 26 de Março de 1923. Começou por ser actriz e modelo. Mas o certo é que desenvolveu ampla carreira também como escritora, tendo publicado mais de uma dezena de romances, alguns dos quais serviram de base a séries televisivas e filmes.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A estante de Fernando Pessoa



"Recebi, há cinco minutos, a sua pergunta: “Quais foram os livros que o banharam numa mais intensa atmosfera de energia moral, de generosidade, de grandeza de alma, de idealismo?” Respondo, como vê, imediatamente. Diz-me que é uma pergunta feita por António Sérgio, a quem não conheço pessoalmente, mas por quem tenho a maior consideração. É mais uma razão para responder depressa; não é, infelizmente, uma razão para poder ser lúcido ou explícito, visto que se trata de um assunto em que, até agora, nunca reflecti.
Como, porém, em todas as dificuldades da vida se deve sempre agir antes de pensar, vou responder antes de saber o que digo, e a resposta terá assim o selo régio da sinceridade.
            Ponho uma questão prévia. Os termos da pergunta pressupõem que a energia moral, a generosidade, a grandeza de alma e o idealismo sejam pessoas abstractas do meu convívio quotidiano. Infeliz, ou felizmente, não o são. Não digo que as não conheça, mas não as conheço com aquela intimidade com que conheço o capricho, a insinceridade e o devaneio – por vezes, até o devaneio lógico, que tem sido uma das minhas principais exterioridades.
            Traduzo, pois, a pergunta para o seguinte: quais foram os livros que me transmudaram em mim mesmo para aquela pessoa diferente que todos nós desejamos ser? Para isto tenho uma resposta – aquela, imediata e impensada, a que acima me refiro, e que deve conter a verdadeira.
            Em minha infância e primeira adolescência houve para mim, que vivia e era educado em terras inglesas, um livro supremo e envolvente – os Picwick Papers, de Dickens; ainda hoje, e por isso, o leio e releio como se não fizesse mais que lembrar.
            Em minha segunda adolescência dominaram meu espírito Shakespeare e Milton, assim, como acessoriamente, aqueles poetas românticos ingleses que são sombras irregulares deles; entre estes foi talvez Shelley aquele com cuja inspiração mais convivi.
            No que posso chamar a minha terceira adolescência, passada aqui em Lisboa, vivi na atmosfera dos filósofos gregos e alemães, assim como na dos decadentes franceses, cuja acção foi subitamente varrida do espírito pela ginástica sueca e pela leitura da Dégénérescense de Nordeau.
            Depois disto, todos os livros que leio, seja de prosa ou de verso, de pensamento ou de emoção, seja um estudo sobre a quarta dimensão ou um romance policial, é, no momento em que o leio, a única coisa que tenho lido. Todos eles têm uma suprema importância que passa no dia seguinte.
            Esta resposta é absolutamente sincera. Se há nela, aparentemente, qualquer coisa de paradoxo não é meu: sou eu."
           
                             Carta a José Osório de Oliveira, Textos de Crítica e de Intervenção