quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A estante de Fernando Pessoa



"Recebi, há cinco minutos, a sua pergunta: “Quais foram os livros que o banharam numa mais intensa atmosfera de energia moral, de generosidade, de grandeza de alma, de idealismo?” Respondo, como vê, imediatamente. Diz-me que é uma pergunta feita por António Sérgio, a quem não conheço pessoalmente, mas por quem tenho a maior consideração. É mais uma razão para responder depressa; não é, infelizmente, uma razão para poder ser lúcido ou explícito, visto que se trata de um assunto em que, até agora, nunca reflecti.
Como, porém, em todas as dificuldades da vida se deve sempre agir antes de pensar, vou responder antes de saber o que digo, e a resposta terá assim o selo régio da sinceridade.
            Ponho uma questão prévia. Os termos da pergunta pressupõem que a energia moral, a generosidade, a grandeza de alma e o idealismo sejam pessoas abstractas do meu convívio quotidiano. Infeliz, ou felizmente, não o são. Não digo que as não conheça, mas não as conheço com aquela intimidade com que conheço o capricho, a insinceridade e o devaneio – por vezes, até o devaneio lógico, que tem sido uma das minhas principais exterioridades.
            Traduzo, pois, a pergunta para o seguinte: quais foram os livros que me transmudaram em mim mesmo para aquela pessoa diferente que todos nós desejamos ser? Para isto tenho uma resposta – aquela, imediata e impensada, a que acima me refiro, e que deve conter a verdadeira.
            Em minha infância e primeira adolescência houve para mim, que vivia e era educado em terras inglesas, um livro supremo e envolvente – os Picwick Papers, de Dickens; ainda hoje, e por isso, o leio e releio como se não fizesse mais que lembrar.
            Em minha segunda adolescência dominaram meu espírito Shakespeare e Milton, assim, como acessoriamente, aqueles poetas românticos ingleses que são sombras irregulares deles; entre estes foi talvez Shelley aquele com cuja inspiração mais convivi.
            No que posso chamar a minha terceira adolescência, passada aqui em Lisboa, vivi na atmosfera dos filósofos gregos e alemães, assim como na dos decadentes franceses, cuja acção foi subitamente varrida do espírito pela ginástica sueca e pela leitura da Dégénérescense de Nordeau.
            Depois disto, todos os livros que leio, seja de prosa ou de verso, de pensamento ou de emoção, seja um estudo sobre a quarta dimensão ou um romance policial, é, no momento em que o leio, a única coisa que tenho lido. Todos eles têm uma suprema importância que passa no dia seguinte.
            Esta resposta é absolutamente sincera. Se há nela, aparentemente, qualquer coisa de paradoxo não é meu: sou eu."
           
                             Carta a José Osório de Oliveira, Textos de Crítica e de Intervenção

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