quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A poem a day keeps the doctor away - Mia Couto

Demoliram o país de Ahmed.
            Erro de construção, justificaram.
Os pilares assentavam numa fé errada.

Debaixo do tecto
se abrigavam famílias,
velhos, meninos, mulheres.

Todos tinham o mesmo nome,
o nome daqueles que não têm nome.

O país ruiu,
ante bombas e tanques,
prova de que não estava bem dimensionado.  
Os pombos escaparam,
os pobres não.
Que culpa têm os demolidores
de haver tanta gente viva?

Dos que sobraram
não se escutam lamentos.
Os moradores choram na língua errada.

Entre os escombros,
um braço de menina
ousa a culpa: de que valia ser criança
se não dava uso à infância?

Erro de cálculo na engenharia
falta de sustentabilidade ambiental,
inviabilidade financeira:
o auditor da comunidade internacional,
encerrou o file no lap-top
e suspirou, aliviado: felizmente,
a maior parte dos países
nunca chegou a existir.
           
            Os mortos justificados, in idades cidades divindades, Mia Couto, pág. 49/50



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Albatroz, Teresa Lopes Vieira

Albatroz conta a história de um homem a braços com uma crise existencial. Jesus e a sua irmã Liberdade, filhos da burguesia endinheirada de Lisboa, são os protagonistas deste romance de Teresa Lopes Vieira. Com traços de humor negro, esta narrativa é cheia de surpresas e emoções, apesar da acção se desenrolar sempre num apartamento com poucas personagens.
O fio condutor deste livro é, a meu ver, a responsabilidade pessoal. A liberdade, os seus condicionalismos, o peso do passado e o preço a pagar pelas nossas opções. O sentido do livro ultrapassa em muito a história concreta das duas personagens principais. É também o retrato de uma sociedade veloz, superficial, marcada por relações líquidas (para usar a expressão de Zygmun Bauman), onde ser não é o principal. O que realmente importa é a imagem projectada, aquilo que parecemos ser (e ter) aos olhos dos outros (gloriosos, triunfadores e sem momentos de fraqueza).
Os protagonistas do livro não conseguem sair deste modelo, apesar de Jesus parecer rejeitá-lo. Certo é que a sua crise existencial ocorre num momento em que está desempregado e a namorada o trocou por um amigo. É aí que se isola no apartamento do seu falecido pai, confrontando-se com o vazio que o domina e o rodeia.
O humor que salpica algumas das páginas desta obra suaviza o seu tom pessimista. Mas só na aparência. No final não há concessões. Quando se fecha o livro sente-se um certo amargo de boca. Afinal, é impossível não reconhecer nas suas páginas a imagem de um certo Portugal contemporâneo.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

A poem a day keeps the doctor away - Miguel Torga

      Hoje partilho um dos poemas de Miguel Torga, um autor cuja escrita conheci nos bancos da escola, com Os Bichos e O senhor Ventura. Nem tudo se perde no tempo. Já não me lembro dos polinómios e já nada sei sobre desenho descritivo. Mas nunca me esqueci das personagens criadas por este escritor transmontano. Tenho para mim que fiquei com a melhor parte.

Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!

                                               Conquista, in Cântico de Homem.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Coração sem limites, Katie Davis e Beth Clark

Katie e as filhas (link para o blogue aqui)


 

São muitas as razões que nos conduzem ao que lemos. A recomendação de um amigo, a exposição feita na badana ou o facto de se tratar de um clássico são apenas algumas. Outra é a pura curiosidade a vontade de conhecermos formas de estar na vida que são muito diversas das que escolhemos para nós.
Vem isto a propósito de Coração sem limites, uma espécie de auto-biografia de Katie J. Davis escrita com Beth Clark. O relato começa quando Davis, então com 18 anos e uma vida confortável junto dos pais e irmão nos Estados Unidos, resolve ir viver durante algum tempo para o Uganda, a fim de trabalhar como voluntária com crianças desprotegidas. O que seria provisório vai ganhando consistência e acaba por ser, tanto quanto pode antever-se, definitivo. Davis vive hoje no Uganda com as suas 13 filhas adoptivas (sendo um mulher solteira, a lei do país não lhe permite adoptar rapazes) e presta auxílio (alimentação, cuidados de saúde e educação) a outras centenas de crianças.
Quando se pega neste livro não se espera uma grande obra literária. Efectivamente não o é, embora esteja escrita de forma escorreita. O único aspecto que pode tornar a leitura menos fluída são as frequentes invocações de Deus e de Jesus. Davis é cristã e o texto dá ampla nota disso, o que pode dificultar a leitura para aqueles que não partilhem da sua fé fervorosa. Ainda assim, e sem discutir a evidente legitimidade de incluir esses elementos que lhe são tão caros, não há dúvidas de que o contexto religioso explica a enorme capacidade de sacrifício desta norte-americana. E acaba por não prejudicar o que me parece ser de reter neste livro: a extraordinária capacidade de entrega desta pessoa perante as dificuldades que a sua missão encerra. Desde o clima do país passando pela miséria em que vive a população do Uganda, incluindo um olhar crítico sobre todos aqueles que optam por ignorar o sofrimento dos seus semelhantes, mesmo quando é extremo e se vê das janelas de sua casa. Sobre tudo isto Davis fala de coração aberto, partilhando os obstáculos e as alegrias da sua vida. E, tendo em conta que aos 18 anos já era mãe adoptiva de mais de dez filhas, é impossível não pousar o livro com uma forte admiração por ela.
Katie Davis tem um blogue onde se pode conhecer melhor o seu trabalho.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A estante de Marguerite Yourcenar

Marguerite Yourcenar
- Quem são os autores que lê ou antes que relê?

- Gosto muito de ler e também gosto muito de reler, como os amantes de música gostam de tocar novamente um mesmo trecho ou de pôr a tocar de novo um mesmo disco. Entre os escritores da geração que precedeu a minha, releio muito Hardy, Conrad, Ibsen, Tolstói … Alguns Tchékhóv, certos Thomas Mann … E o livro que reli, se não mais vezes, pelo menos com maior benefício, foi a autobiografia de Gandhi.

- Mais uma vez, nenhum francês.

- Faz-me reparar novamente nisso: nem sequer tinha pensado. Releio alguns livros de Balzac, ou Saint Simon, ou Montaigne, mas esses pertencem já a um passado muito distante. Entre os grandes escritores do início do século, creio que irei recordar sobretudo Marcel Proust. Gosto, nele, da grande construção temática, da percepção notável da passagem do tempo e da mudança que produz nas personalidades humanas, e de uma sensibilidade que não se parece com nenhuma outra. Reli Proust sete ou oito vezes.

                                                                In, De olhos abertos, pág. 206.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Morte em Pemberley, P.D. James

Os marinheiros dos Descobrimentos não resistiam ao canto das sereias em alto mar sabendo que o seu objectivo era conduzirem o navio ao naufrágio. É parecida a atracção exercida por Jane Austen junto de muitos escritores actuais. E o canto a que mais facilmente sucumbem é Orgulho e Preconceito.
A popularidade daquela obra conduziu à existência de uma miríade de livros tendo Miss Elisabeth Bennet e Mr. Darcy como protagonistas. Basta uma investigação sumária pela Amazon e encontramos de tudo: diários das irmãs Bennett e demais protagonistas do livro e sequelas para todos os gostos (por exemplo, de cunho erótico, fantástico ou já centrados na nova geração constituída pelos filhos do casal). A maior parte destas não deixa grandes marcas. Mas a prova do sucesso da escritora está na atracção que ela exerce mesmo junto de escritores consagrados.
Há anos atrás Colleen McCullough (autora de obras como O primeiro homem de Roma e Pássaros Feridos) escreveu The Independence of Miss Mary Benett (em português, A independência de uma mulher). Apesar da protagonista da história ser Mary Bennet, os Darcy, já casados, têm papel de relevo na trama. A obra gerou controvérsia entre as fileiras austenianas. E não é para menos. Para além de incluir cenas de sexo antes do casamento (o que, convenhamos, é pouco conforme com a escrita de Jane Austen), McCullough decidiu ainda que ambos os casamentos das irmãs Bennet, com Darcy e Bingley eram, afinal, profundamente infelizes.
            P.D.James optou por outro caminho. Esta autora é um nome consagrado da literatura policial. A narrativa de Morte em Pemberley tem como prato forte um homicídio ocorrido na propriedade dos Darcy. As personagens de Orgulho e Preconceito fornecem um contexto à acção, mas a verdade é que o livro nem se afasta muito do registo de outros romances policiais ingleses em contexto histórico, como os de Anne Perry (por exemplo, O Estrangulador de Cater Street). Os Bingley e os Darcy são felizes e a galeria de personagens secundárias que os rodeia segue um percurso (as demais irmãs Bennet e Mr. Collins e a sua esposa, por exemplo) previsível. Um aspecto curioso é a ligação feita a outras obras de Austen (Persuasão e Ema), ainda que de forma ténue. O único ponto capaz de causar polémica é um conjunto de reflexões espalhadas ao longo do livro sobre o relevo da fortuna de Mr. Darcy na decisão de Elisabeth em casar com ele em detrimento de outros pretendentes que teve, como o coronel Fitzwilliam. Mas nada que permita pôr em causa que se tratou de um casamento por amor, apesar dos rumores em sentido diverso junto da comunidade local.
Há um aspecto em que P. D. James não consegue suplantar ou sequer igualar Austen: nos diálogos entre Mr. Darcy e a sua esposa. Na verdade, o que torna Orgulho e Preconceito uma obra inesquecível é a especial relação de ambos, marcada pela vivacidade e ironia. E isso não tem eco neste policial. Os diálogos de Elisabeth e Darcy não se distinguem dos de qualquer outro casal que seja retratado como sendo feliz.  
            Este livro é um policial de época bem escrito que nos permite perceber como era a vida da aristocracia inglesa no início do século XIX. Mas é também mais uma prova do talento de Jane Austen. Em Orgulho e Preconceito tudo está tão bem composto e em tão justa medida que parece fácil escrever assim. Mas, como sucessivos escritores têm percebido com as suas tentativas de retomar a obra, não é.