sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Albatroz, Teresa Lopes Vieira

Albatroz conta a história de um homem a braços com uma crise existencial. Jesus e a sua irmã Liberdade, filhos da burguesia endinheirada de Lisboa, são os protagonistas deste romance de Teresa Lopes Vieira. Com traços de humor negro, esta narrativa é cheia de surpresas e emoções, apesar da acção se desenrolar sempre num apartamento com poucas personagens.
O fio condutor deste livro é, a meu ver, a responsabilidade pessoal. A liberdade, os seus condicionalismos, o peso do passado e o preço a pagar pelas nossas opções. O sentido do livro ultrapassa em muito a história concreta das duas personagens principais. É também o retrato de uma sociedade veloz, superficial, marcada por relações líquidas (para usar a expressão de Zygmun Bauman), onde ser não é o principal. O que realmente importa é a imagem projectada, aquilo que parecemos ser (e ter) aos olhos dos outros (gloriosos, triunfadores e sem momentos de fraqueza).
Os protagonistas do livro não conseguem sair deste modelo, apesar de Jesus parecer rejeitá-lo. Certo é que a sua crise existencial ocorre num momento em que está desempregado e a namorada o trocou por um amigo. É aí que se isola no apartamento do seu falecido pai, confrontando-se com o vazio que o domina e o rodeia.
O humor que salpica algumas das páginas desta obra suaviza o seu tom pessimista. Mas só na aparência. No final não há concessões. Quando se fecha o livro sente-se um certo amargo de boca. Afinal, é impossível não reconhecer nas suas páginas a imagem de um certo Portugal contemporâneo.

Sem comentários:

Enviar um comentário