terça-feira, 3 de setembro de 2013

Morte em Pemberley, P.D. James

Os marinheiros dos Descobrimentos não resistiam ao canto das sereias em alto mar sabendo que o seu objectivo era conduzirem o navio ao naufrágio. É parecida a atracção exercida por Jane Austen junto de muitos escritores actuais. E o canto a que mais facilmente sucumbem é Orgulho e Preconceito.
A popularidade daquela obra conduziu à existência de uma miríade de livros tendo Miss Elisabeth Bennet e Mr. Darcy como protagonistas. Basta uma investigação sumária pela Amazon e encontramos de tudo: diários das irmãs Bennett e demais protagonistas do livro e sequelas para todos os gostos (por exemplo, de cunho erótico, fantástico ou já centrados na nova geração constituída pelos filhos do casal). A maior parte destas não deixa grandes marcas. Mas a prova do sucesso da escritora está na atracção que ela exerce mesmo junto de escritores consagrados.
Há anos atrás Colleen McCullough (autora de obras como O primeiro homem de Roma e Pássaros Feridos) escreveu The Independence of Miss Mary Benett (em português, A independência de uma mulher). Apesar da protagonista da história ser Mary Bennet, os Darcy, já casados, têm papel de relevo na trama. A obra gerou controvérsia entre as fileiras austenianas. E não é para menos. Para além de incluir cenas de sexo antes do casamento (o que, convenhamos, é pouco conforme com a escrita de Jane Austen), McCullough decidiu ainda que ambos os casamentos das irmãs Bennet, com Darcy e Bingley eram, afinal, profundamente infelizes.
            P.D.James optou por outro caminho. Esta autora é um nome consagrado da literatura policial. A narrativa de Morte em Pemberley tem como prato forte um homicídio ocorrido na propriedade dos Darcy. As personagens de Orgulho e Preconceito fornecem um contexto à acção, mas a verdade é que o livro nem se afasta muito do registo de outros romances policiais ingleses em contexto histórico, como os de Anne Perry (por exemplo, O Estrangulador de Cater Street). Os Bingley e os Darcy são felizes e a galeria de personagens secundárias que os rodeia segue um percurso (as demais irmãs Bennet e Mr. Collins e a sua esposa, por exemplo) previsível. Um aspecto curioso é a ligação feita a outras obras de Austen (Persuasão e Ema), ainda que de forma ténue. O único ponto capaz de causar polémica é um conjunto de reflexões espalhadas ao longo do livro sobre o relevo da fortuna de Mr. Darcy na decisão de Elisabeth em casar com ele em detrimento de outros pretendentes que teve, como o coronel Fitzwilliam. Mas nada que permita pôr em causa que se tratou de um casamento por amor, apesar dos rumores em sentido diverso junto da comunidade local.
Há um aspecto em que P. D. James não consegue suplantar ou sequer igualar Austen: nos diálogos entre Mr. Darcy e a sua esposa. Na verdade, o que torna Orgulho e Preconceito uma obra inesquecível é a especial relação de ambos, marcada pela vivacidade e ironia. E isso não tem eco neste policial. Os diálogos de Elisabeth e Darcy não se distinguem dos de qualquer outro casal que seja retratado como sendo feliz.  
            Este livro é um policial de época bem escrito que nos permite perceber como era a vida da aristocracia inglesa no início do século XIX. Mas é também mais uma prova do talento de Jane Austen. Em Orgulho e Preconceito tudo está tão bem composto e em tão justa medida que parece fácil escrever assim. Mas, como sucessivos escritores têm percebido com as suas tentativas de retomar a obra, não é.

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