quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Da vida involuntária - Agostinho da Silva

Nunca gostei da frase “a vida é o que acontece enquanto estamos a fazer planos.” É verdade que não se pode planificar tudo. Para o melhor e para o pior muita coisa sai do nosso controlo. Mas a vida como mera sucessão de momentos construídos ao sabor do acaso não me agrada. A propósito dos dias sem história e sem intento encontrei este segmento de Agostinho da Silva. Da vida involuntária, é o seu título:

"Rara será a existência que actualmente se não deixe balouçar ao sabor das correntes, cada hora impelida a um rumo diferente pela última notícia que se leu ou pela última conversa que se teve. Se fim a que aponte, a alma da maioria dos homens flutua na vida com a fraca vontade e a gelatinosa consistência das medusas; um dia se sucede a outro dia sem que o viver represente uma conquista, sem que a manhã que renasce seja uma criação do nosso próprio espírito e não o fenómeno exterior que passivamente se aceita e que por hábito nos impele a um determinado número de acções; desfez-se a crença em que o mundo é formado pelo homem, em que o reino de Deus terá de ser obtido, não como uma dádiva dependente do arbítrio de um ente superior, mas como a paciente, firme, contínua construção dos seus futuros habitantes. Daí a facilidade das entregas aos que ainda aparecem com dedos de escultor, daí os desânimos e as indiferenças, daí o supor-se que apenas surgimos no mundo para nos garantirmos, diariamente, um almoço, um jantar e uma casa; perdem-se as almas nas tarefas inferiores do existir, nenhuma grande aspiração de beleza, de liberdade e de amor guia através das noites obscuras e dos cerrados nevoeiros aqueles mesmo que nasceram mais fortemente desprendidos das animalidades primitivas. Há como que o prazer da desordem, da irresolução, do pensamento confuso; quase se tornou censurável marchar com a regularidade dos astros, divinizou-se o acto imprevisível e o gesto que vem contrariar o do momento anterior; ninguém para um instante para reflectir, coordenar as ideias, eliminar as que se mostram incapazes de em acordo se ligarem ao que de seguro ficou estabelecido. A fala medida e o silêncio que fazem possível o diálogo e pelo diálogo a viagem aos bordos mais longínquos do universo cederam lugar a um discurso plural que deve ser aos ouvidos de Deus como zumbido importuno de insecto que teima em passar da vidraça; quebra-se a barreira ateniense da harmonia e a barreira espartana da vontade e dá-se livre curso aos ímpetos, aos repentes, aos caprichos; troca-se o manso fluir dos grandes rios, a ondulação poderosa e calma do mar largo pelos colchões e as espumas das correntes que se entrechocam e batem. Que loucura vos tomou, meus irmãos homens? Urge que apeeis o Acaso do lugar divino  que lhe destes, que lanceis, como diques e caminho da vida, as fortes linhas da inteligência ordenadora e da vontade, que acima de tudo se habitue a vossa alma a construir a existência com a pureza, o nítido recorte e a querida abstenção da estrofe de um poema."

             Texto e Ensaios Filosófico, I, Diário de Alcides, págs. 225/226, Âncora Editora.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Da persistência - Agostinho da Silva


Miró

Há pessoas que por um certo número de circunstâncias se encontram ilógicas no meio em que vivem; são elas que destoam do quadro; tudo o resto funciona como devia funcionar, conclui-se tão bem das primeiras bases como do edifício geométrico; os gestos à primeira vista mais estranhos, as atitudes mais inverosímeis têm a sua razão de ser e apresentam-se como uma necessidade e um acordo; se alguma coisa está errada é a existência dos críticos; certamente se justifica que os tratem com desprezo e os procurem suprimir; eles perturbam a harmonia social.
Os que não são de muito boa qualidade e trazem dentro em si um grão de mal adaptam-se com o tempo; vão-se dobrando aos costumes; vai-os limando o ambiente das asperezas primitivas; subjuga-os a grande foram dos pequenos acontecimentos diários; desorientam-se no anedótico; talhados para a vida universal se soubessem bater-se e reagir, caem no baixo plano do incidente; acaba por encontrar prazeres e recompensas na contínua descida; os outros, desculpando-se do que eles próprios são, animam-nos ao abandono dos altos cumes, e a vida no plano comum acaba por sorrir-lhes.
Mas o que obriga a transformar tem naturalmente maior força do que o que se transforma; intimamente despreza-o; só espera o momento de o esmagar e esquecer. Água vai na água; mas a fraga provoca os marulhos, redemoinhos e espumas; pelo que se opõe vive o rio; por ele se divida a corrente, por ele retumba além da sua linha de margem. Quem se adaptou jamais é tão perfeito que o não possam reconhecer estrangeiro e troçar-lhe os leves erros de pronúncia. Depois, a luz do bem nunca se apaga por completo; incomoda sempre as puras aves nocturnas; mas não é tão forte que as ofusque e as impeça dos voos traiçoeiros.
A única salvação do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas – batalhas para os outros, não para ele, que as percebe – há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.

                                         Textos e Ensaios Filosóficos, Diário de Alcestes, págs. 217/218

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O Botequim da Liberdade, Fernando Dacosta

Natália Correia


Uma promessa e uma recordação. Fernando Dacosta prometeu a Natália Correia que escreveria a história d’ O Botequim, bar que a mesma explorava no bairro da Graça. É assim que nasce este livro publicado passados que estão 10 anos sobre a morte da sua amiga. Poeta, intelectual e deputada, Natália Correia é uma figura incontornável do século XX português. O livro não é uma biografia, mas permite apreender alguns aspectos da sua personalidade. A combatividade, a solidariedade e o modo generoso como acolhia amigos, conhecidos e candidatos ou aspirantes a integrar a vida intelectual e a cena política nacional. Pelo Botequim passaram grandes figuras das artes, da sociedade e da política portuguesas, com vivências e sensibilidades muito distintas, o que contribuiu para enriquecer aquele espaço como local privilegiado de debate e convívio. É talvez essa a parte mais interessante do livro, recordando um tempo em que a economia era uma ciência humana, um meio de que a política se socorria e não o seu principal foco ao lado da “irmã gémea” contabilidade. Amália Rodrigues, Fernanda de Castro, José Saramago, Ramalho Eanes e Manuel Eanes, Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis, José Cardoso Pires e tantos outros desfilam por estas páginas, no que acaba por ser também uma lição de história de Portugal.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A poem a day keeps the doctor away - Sophia de Mello Breyner

A fotografia foi tirada pela minha Amiga Filipa Gonçalves em Marrocos

 
São tantas e tão diversas as contrariedades que minam os dias que quase esquecemos o que vem a nós sem esforço e nos faz bem. Ontem peguei numa revista por mero acaso e encontrei este poema de Sophia de Mello Breyner. Não sei quando foi escrito ou onde foi publicado originalmente. Agora que o descobri vai ficar para sempre comigo, como sucede com os poemas que encontramos no momento certo da vida.  

Escuto mas não sei
se o que oiço é silêncio
ou Deus.

Escuto sem saber se estou a ouvir
o ressoar das planícies no vazio
ou a consciência atenta
que nos confins do universo
me decifra e fita.

Apenas sei que caminho como quem
é olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
solenidade e risco.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Mel - Ian McEwan

Mel conta a história de Serena Frome uma jovem inglesa que em plena Guerra Fria é recrutada pelo MI5. Apesar do empenho que põe na sua missão as coisas não correm exactamente como esperado.
McEwan dá-nos a conhecer o contexto familiar da personagem e a sua evolução até ao momento em que ingressa nos serviços secretos ingleses. Descreve igualmente o modo de funcionamento daqueles á época, de uma forma tão detalhada que, em certos momentos, parece que estamos dentro das respectivas instalações. Aliás, o rigor na reconstituição está explicado na nota final de agradecimento do autor, aí surgindo também indicada a bibliografia que consultou.
Uma vez integrada nos serviços secretos e após um período em que a sua carreira não parece despertar particular interesse, é dada a Serena Frome uma missão que a põe em contacto com T. Haley, um prometedor romancista. É preciso dizer que o traço característico de Serena é a sua paixão pela literatura. Esse é um factor decisivo, não apenas para a sua escolha como elemento na indicada missão, mas também para o modo como a mesma se desenvolve.
São aqui retomados temas já presente em outras obras deste escritor: o engano, a traição, a ténue linha que separa a verdade da mentira em muitos momentos das relações humanas. E a importância dos desvios que todos nós fazemos, como personagens nas histórias que inventamos. Esses eram tópicos já presentes em O inocente e Expiação.
Tal como naquele último livro, também e Mel o autor relembra os leitores mais distraídos de que, ao contrário do que pode suceder na literatura em que a acção se contém nos limites desenhador pelo escritor, na vida não há fórmulas fechadas. A imprevisibilidade humana conduz a que muitas vezes o resultado de uma actuação junto de terceiro esteja longe de ser o esperado.
Serena Frome mergulha, pois, no mundo da criação literária, com o fascínio comum a todos os leitores. Neste livro, McEwan troca-nos as voltas, tal como sucede com à personagem principal. Mas, numa construção curiosa, comum também a Serena Frome deixa-nos a decisão quanto ao desfecho, feliz ou não, desta história.
De entre os livros deste autor, o meu favorito continua a ser Sábado. Mas Mel é também um livro que vale a pena ler. Não só pelo retrato que faz do MI5, mas também pela capacidade de virar o feiticço contra o feiticeiro, no que a Serena Frome diz respeito. E pela coragem de propor um final feliz.