segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Da persistência - Agostinho da Silva


Miró

Há pessoas que por um certo número de circunstâncias se encontram ilógicas no meio em que vivem; são elas que destoam do quadro; tudo o resto funciona como devia funcionar, conclui-se tão bem das primeiras bases como do edifício geométrico; os gestos à primeira vista mais estranhos, as atitudes mais inverosímeis têm a sua razão de ser e apresentam-se como uma necessidade e um acordo; se alguma coisa está errada é a existência dos críticos; certamente se justifica que os tratem com desprezo e os procurem suprimir; eles perturbam a harmonia social.
Os que não são de muito boa qualidade e trazem dentro em si um grão de mal adaptam-se com o tempo; vão-se dobrando aos costumes; vai-os limando o ambiente das asperezas primitivas; subjuga-os a grande foram dos pequenos acontecimentos diários; desorientam-se no anedótico; talhados para a vida universal se soubessem bater-se e reagir, caem no baixo plano do incidente; acaba por encontrar prazeres e recompensas na contínua descida; os outros, desculpando-se do que eles próprios são, animam-nos ao abandono dos altos cumes, e a vida no plano comum acaba por sorrir-lhes.
Mas o que obriga a transformar tem naturalmente maior força do que o que se transforma; intimamente despreza-o; só espera o momento de o esmagar e esquecer. Água vai na água; mas a fraga provoca os marulhos, redemoinhos e espumas; pelo que se opõe vive o rio; por ele se divida a corrente, por ele retumba além da sua linha de margem. Quem se adaptou jamais é tão perfeito que o não possam reconhecer estrangeiro e troçar-lhe os leves erros de pronúncia. Depois, a luz do bem nunca se apaga por completo; incomoda sempre as puras aves nocturnas; mas não é tão forte que as ofusque e as impeça dos voos traiçoeiros.
A única salvação do que é diferente é ser diferente até ao fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas – batalhas para os outros, não para ele, que as percebe – há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.

                                         Textos e Ensaios Filosóficos, Diário de Alcestes, págs. 217/218

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