sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Tímido e as Mulheres, Pepetela






Pepetela
    
Pepetela é seguramente um dos escritores africanos de língua portuguesa mais conhecidos, tendo recebido em 1997 o Prémio Camões. O Tímido e as Mulheres é a sua obra mais recente.
Nele é contada a história de Heitor, um jovem aspirante a escritor com pouca sorte em matéria amorosa. Através dele e dos seus amigos, ficamos a conhecer o dia-a-dia da sociedade angolana. Os efeitos da guerra, as desigualdades sociais e a corrupção (esta última omnipresente em todo o contexto) são narrados de forma consistente, como sendo parte integrante da realidade daquele país. No entanto, através da sua escrita, Pepetela foge aos estereótipos, traçando antes um retrato de personagens humanas, com qualidades e defeitos. A crítica contundente que perpassa o texto não cai, assim, em maniqueísmos.
Para além disso, para quem, como é o meu caso, leu ainda pouca literatura africana lusófona, é um prazer seguir as descrições que Pepetela faz da natureza e da cultura do seu país. Numa outra vertente, também gostei muito da construção frásica, juntando expressões angolanas com as do português que por cá falamos. Para além de Heitor e dos seus amigos, acompanhamos ainda de perto Marisa, uma locutora de rádio cuja voz sensual prende muitos dos habitantes de Luanda e cuja presença vai entontecer Heitor. O encantamento é mútuo até porque este é um livro também sobre desejos, assumidos ou apenas adivinhados.
Marisa é uma mulher que gera várias paixões e é também sobre elas a história narrada, com os seus avanços, recuos e culpas, próprias e de terceiros. Quanto ao final apenas se pode dizer que é consentâneo com o realismo que perpassa todo o texto. Não é previsível, mas coerente. E deixa-nos a pensar sobre o sentido oculto de alguns actos de aparente altruísmo. Na verdade, quantas vezes não há aí um detonador de culpa para o seu beneficiário?

quarta-feira, 27 de novembro de 2013





De entre tantos critérios para organizar uma biblioteca nunca tinha pensado neste: arrumar os livros tendo por critério as cores das respectivas lombadas. Para ver aqui.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A Papoila e o Monge, José Tolentino Mendonça



Há vários silêncios
desde o início aprende a dizer
o plural
(pág. 27)

Dentro e fora
a mesma claridade
sem reserva nem cálculo
(pág. 59)

          Óscar Wilde escreveu que se deve resistir a tudo menos a uma tentação. Não posso dizer que me tenha convencido. Aliás, basta recordar a vida de Wilde para ter reservas quanto à justeza daquela máxima. Mas em matéria de letras e livros tenho de o secundar. Quando entro numa livraria só uma dúvida me assalta: como é que vou arranjar tempo para ler isto tudo? Há certamente problemas maiores, pelo que não vale a pena sofrer demasiado com este tema. Na dúvida, o livro vai comigo. O momento para o ler há-de chegar.  
Hoje regresso a casa com esta surpresa: A Papoila e o Monge de José Tolentino Mendonça. Um livro acabadinho de chegar às livrarias e que nasce de uma viagem ao Japão, leituras de Jack Kerouac e do Book of Haikus.
            A menina da caixa perguntou-me se era para oferta. Respondi-lhe que não. Mas não é verdade. É uma prenda de mim para mim que bem mereço.
           



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A poem a day keeps the doctor away - Sebastião da Gama


The cool hunter

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos.