segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A sentinela, Richard Zimler


            Negro, negro, negro. Foi desta cor que se me inundou a alma ao ler A Sentinela de Richard Zimler, um retrato sobre o mal nas suas diferentes tonalidades e formas.
O protagonista é Henrique Monroe nascido nos Estados Unidos da América, filho de mãe portuguesa e pai norte-americano. Ele e o irmão mais novo vêm para Portugal ainda miúdos sendo entregues aos cuidados da tia Olívia. Aparentemente, Monroe teve mais sorte do que o irmão. Apesar de ambos terem passado pelo suicídio da mãe e sofrido com o carácter violento do pai, encontramo-lo com a vida construída dentro de padrões considerados como normais: é casado, pai de dois filhos e investigador na Polícia Judiciária. O irmão mais novo não se mostra capaz de fazer o mesmo. Ainda assim, Monroe guarda também cicatrizes da sua infância infeliz. Gabriel é a mais evidente (e mais não digo, para deixar a cada um a possibilidade de o descobrir). O aspecto mais tocante do livro são os retrocessos da acção até à infância dos dois irmãos, com cenas descritas de forma pungente. O mais conseguido, a meu ver, é a ligação feita entre esses momentos da infância e cada um dos irmãos na idade adulta, incluindo o modo como se mantêm unidos e se amparam mutuamente.
            A história do protagonista já chegaria para assegurar ser este um livro marcado pela tristeza. Porém, Zimler vai mais longe. Monroe investiga um homicídio seguindo pistas tão sombrias como as ligações entre os empresários da construção civil e o poder político, a corrupção e o abuso sexual de menores, tudo misturado para compor um retrato de falência das instituições e desânimo dos que nela servem incapazes de combater os que têm mais poder e valerem aos mais fracos. O facto de serem referidos nomes de protagonistas da vida portuguesa torna a narrativa ainda mais credível. Não estamos a ler uma história que se passa numa época não determinada e lá muito longe. A narrativa é antes aqui e agora.  
Na minha opinião este é um romance sobre o mal nos seus vários modos, incluindo o da indiferença à maldade alheia (e ao sofrimento que ela provoca). Sobre as trevas e a luz que timidamente bruxuleia aqui e acolá, apesar de tudo. Pelo livro perpassa um vento de derrota, expresso na incapacidade dos bons levarem a cabo qualquer tipo de luta consistente contra os maus (a dicotomia, à luz do livro, não é maniqueísta).
Se o retrato é realista ou exagerado será matéria para cada leitor decidir. Contudo, uma coisa é clara: esta não é uma leitura de onde se emerja bem disposto ou esperançoso no nosso futuro. Mas seguramente que deixa muita matéria para reflexão. 


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