quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A invenção do amor, José Ovejero

O que primeiro me atraiu no livro foi o título que acho muito feliz e me recordou de imediato o poema homónimo de Daniel Filipe. A narrativa contida neste livro é muito diferente daquele poema. Mas ambos falam sobre o poder renovador do amor.
O protagonista do livro é Samuel, um homem de quarenta anos que vive sem grandes apegos ou entusiasmos. Com uma situação económica confortável vai levando uma existência pontuada por casos amorosos que o próprio reconhece como pouco relevantes e uma vida profissional mediana, para não dizer medíocre, numa empresa onde é simultaneamente empregado e sócio. Um dia recebe um telefonema comunicando-lhe a morte de Clara. Samuel não se lembra de ter existido qualquer Clara na sua vida, mas acaba por não desfazer o equívoco e vai à cerimónia fúnebre dessa desconhecida. É aí que conhece algumas das pessoas que fizeram parte da vida de Clara, incluindo a sua irmã Carina.
Assim se inicia este romance de José Ovejero sobre a verdade, a mentira e os acasos da vida. Um dos pontos mais interessantes do livro é a capacidade de Samuel para construir uma relação inventada Clara. Sobretudo porque esta não é uma narrativa superficial. Samuel, Clara e Carina são personagens consistentes e as ligações entre os três são urdidas de um modo que apenas na aparência é simples. À medida que a acção vai avançando outras questões e personagens são introduzidos. Mas a atenção nunca é desviada da capacidade improviso de Samuel que, sem saber verdadeiramente o que Carina conhece da relação amorosa da irmã, vai abrindo novos caminhos na mentira. Até que esta e a verdade se vão tornando cada vez mais difíceis de distinguir. Se é que Carina e Samuel querem mesmo descobrir onde se traça essa linha, claro.  
Nas páginas finais do livro a personagem principal percebe que não é por se viver descomprometidamente que não são feitas escolhas ou a vida se esquece de nós. O que seria interessante saber é se esta constatação, tendo em atenção todo o percurso de vida do personagem até àquele momento, tem consequências duradouras na sua vida ou mais não é do que um entusiasmo momentâneo. O livro deixa essa questão em aberto, talvez de propósito, como se fosse uma pergunta dirigida a cada leitor.

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