segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Os níveis da vida, Julian Barnes


Imagem daqui



"Vivemos uma vida normal, verdadeira, e no entanto – e por isso – temos aspirações. Terráqueos, conseguimos às vezes chegar tão longe como os deuses. Alguns elevam-se com a arte, outros com a religião; a maioria com o amor. Mas quando subimos também podemos despenhar-nos. Há poucas aterragens suaves. Podemos dar connosco aos saltos pelo chão, com uma força capaz de partir pernas, arrastados para uma qualquer via-férrea estrangeira. Todas as histórias de amor são potenciais histórias de dor. Se não no princípio, depois. Senão para um, para outro. Às vezes para ambos.
Então por que aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia. A verdade como na fotografia; a magia como no balonismo."
    É esta a grande lição a colher do livro de Barnes Os níveis da vida. Misto de ficção e ensaio fala de balonismo, fotografia e amor, estando subdivido em três capítulos. É o último (A perda em profundidade) inspirado na sua viuvez que me pareceu mais cativante. A descrição do sofrimento pessoal é sempre delicada, um equilíbrio difícil entre a emoção do autor e a sua capacidade de se fazer compreender por cada um de nós. Naquele capítulo Barnes faz isso de forma perfeita. Escreve páginas inesquecíveis sobre o amor, a perda e o sofrimento. Recordou-me um livro magistral O ano do pensamento mágico. Nele Joan Didion recorda o ano subsequente à morte do seu marido e companheiro de décadas. Nestes tempos em que se diz que o amor não existe ou que mais não é do que um impulso biológico com data de validade imposta pelas hormonas as palavras de Barnes, como as de Didion, demonstram inequivocamente que não é assim. Que há pessoas que se apaixonam e amam uma mesma pessoa durante toda uma vida e para quem a morte daquela é irreparável. Nestes tempos de fast-food emocional a certeza de que ainda se pode aspirar a um amor sem prazo de validade é reconfortante.  

                                        

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