sexta-feira, 21 de março de 2014

Homenagem aos poetas (Faíza Hayat)






As crónicas de Faíza Hayat (Conversas com o espelho) foram publicadas na revista Xis (que durante anos fez parte do jornal Público aos sábados). Esses textos estiveram na génese de O evangelho segundo a serpente que, creio, foi o primeiro livro da autora. O excerto que divulgo pertence a Liricoterapia, uma das minhas crónicas favoritas. É sobre o poder e a força da poesia. Podia tê-lo publicado em qualquer outro dia. Mas hoje também não vem a despropósito, pois não conheço texto mais apropriado para homenagear os poetas no seu dia.
“(…) Não sei se a forma como encaramos a poesia mudou devido à degenerescência dos poetas, ou à geral corrupção do maravilhoso, isto é, ao facto de, com a revolução industrial, com o rápido progresso tecnológico, nos termos todos, a humanidade inteira, um pouco por toda a parte, tornado mais materialistas. Eu, confesso, ainda estremeço diante de alguns versos de Fernando Pessoa ou de Walt Whitman. Adivinho neles uma luz que não é deste mundo; uma força para além das paredes, físicas, que nos aprisionam. Parece-me mais fácil acreditar nas virtudes terapêuticas de um verso de Sophia, por exemplo, do que no poder curativo de uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim.
(Todavia, tenho uma presa ao meu pulso esquerdo. Escrevo-vos a partir de um quarto de hotel na cidade de Salvador, na Bahia).
Agrada-me imaginar a existência de curandeiros-poetas. Fico eu própria com vontade de abrir uma clínica de liricoterapia.
“Sofre de digestões difíceis? Vou-lhe passar um soneto de Camões – leia-o duas vezes antes das refeições.”
“Taquicardia? Experimente “O coração disparado” da brasileira Adélia Prado. Leia-o à meia-noite, à luz de velas, num terraço sobre o mar.”
“Sente-se deprimido? Tem aqui um livrinho de Eugénio de Andrade, “Matéria Solar”, declame cinco poemas todas as noites depois de jantar.”
Poderia ainda receitar Eugénio de Andrade, neste caso “Ofício de Paciência”, para as pessoas que sofrem de stress no trânsito, à hora de ponta, a caminho do emprego ou no regresso a casa.
Mal, por certo, não faria. Tenho ensaiado em mim própria esta, digamos assim, medicina alternativa. Passei a tarde de ontem em Itapuã, na praia, declamando, como um mantra, enquanto flutuava de costas num liso céu azul anil, um breve poema de Ferreira Gullar:
“Aqui me tenho/como não me conheço/ nem me quis/sem começo/nem fim/aqui me tenho/sem mim/nada lembro/nem sei/ à luz presente/sou apenas um bicho/transparente.”   






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