terça-feira, 29 de abril de 2014

O rapaz do pijama às riscas, John Boyne

Bruno é um rapaz de nove anos que vive em Berlim com a mãe, o pai e a irmã numa casa grande e bonita. Os seus problemas são os de qualquer rapaz típico da sua idade. O maior deles é a relação com a irmã que insiste em vê-lo como um empecilho e como tal o trata. O que Bruno retribui.
Um dia a família tem de mudar de casa por causa do emprego do pai. Bruno não sabe qual é a profissão dele, mas ao ver o local onde vão passar a residir deduz que o mesmo não deve ter feito coisa boa e que o seu chefe tem de o estar a castigar por qualquer falha.
Longe dos amigos de sempre Bruno dá pela presença de umas pessoas algo estranhas com um ar sujo e miserável, sempre vestidas com pijamas às riscas. Ninguém lhe diz quem são aquelas pessoas (há mesmo quem lhe diga, perante a sua absoluta incompreensão, que não são verdadeiramente pessoas). É entre elas que esta criança alemã vai encontrar um novo amigo Shmuel, também ele nascido a 15 de Abril de 1934. A coincidência de partilharem a data de aniversário aproxima-os e, à revelia dos adultos, vão construindo a sua amizade, cada um do seu lado da vedação. Uma relação que resiste à revelação de que um deles é alemão e o outro judeu. E de que o segundo vive no campo de concentração que o pai do primeiro dirige. Até ao dia em que um deles atravessa a vedação para finalmente puderem brincar juntos.
Este livro (já adaptado ao cinema) deveria ser lido por pessoas de todas as idades. O autor consegue algo extraordinário na forma como conta a história, dando-nos em simultâneo a interpretação dos factos feita pelas crianças e a percepção que temos como adultos de qual é a realidade que estão a viver. É um livro comovente e corajoso pela forma como retrata Bruno e o modo como o mesmo vê a situação do seu amigo Shmuel. E pela forma como nos apresenta Shmuel para quem a circunstância de Bruno ser alemão e filho do comandante do campo de concentração não afecta a capacidade de o reconhecer como seu grande amigo.
É um livro pequeno em tamanho mas grande no conteúdo. De uma forma simples, devolve-nos a pureza da infância, comove-nos e recorda o que é verdadeiramente importante. Como sempre acontece quando vemos o mundo pelos olhos das crianças.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O tédio e o encantamento (I)

Na Teoria dos Quatro Humores o carácter melancólico identificado em algumas pessoas é atribuído ao excesso de bílis negra. O estudo de Hipócrates é um dos motivos pelos quais me parece que quem disse que depois dos gregos nada de novo surgiu debaixo do céu andou muito próximo da verdade. A afirmação pode ter o seu quê de excessivo. Mas, por exemplo, em matéria literária todos os grandes temas são constantes e transversais: o amor (ou a falta dele), a morte, o sentido da vida, a luta do indivíduo contra a sociedade e o tédio. Este mais não é do que um intervalo na busca do sentido da vida ou, em casos mais graves, a desistência de o encontrar.
Num ensaio publicado em 2011 (O tédio enquanto configuração contemporânea) José Baptista traça a história desse estado de alma, traçando o seu percurso desde a antiguidade clássica passando pela melancolia medieval até contemporâneo, sem esquecer essa grande invenção francesa que foi o ennui novecentista. O que parece distinguir a experiência entediante hoje é, por um lado, a recusa da mesma por parte do homem/mulher contemporânea e, por outro lado, a sua aparente improdutividade. E, no entanto, sendo o tédio uma parte insofismável da experiência humana a questão está em aprendermos a lidar com ele. Na literatura não faltam exemplos de pessoas entediadas. Basta pensar em O estrangeiro de Camus ou no protagonista de Extensão do Domínio de Luta de Michel Houellebecq. E não será no nosso João da Ega o entediado-mor da praça lisboeta?
A galeria de entediados ganha agora uma nova figura, a protagonista do livro de Paulo Coelho Adultério. Linda é uma mulher de 31 anos que vive com um marido tão perfeito que nem ela lhe consegue encontrar falhas, apesar dos anos que já levam casados. Fazem parte da classe média alta numa família composta ainda por dois filhos que, de tão falhos de problemas, passam pelo livro sem que lhe recordemos os nomes. A família vive na Suíça retratada como um país bonito, seguro e asséptico, onde não há histórias dignas de permitir à protagonista encontrar entusiasmo na sua profissão de jornalista. Tudo visto, tudo dito, tudo feito. É, pois, no meio desta vida pouco menos que irrepreensível que encontramos Linda, primeiro incomodada e gradualmente mais frustrada com a sua existência sem brilho e sem gosto.
O livro é construído sobre a constatação da protagonista de que tem uma vida perfeita e da qual não se pode (objectivamente) queixar. Claro que o leitor mais imaginativo pode questionar-se sobre se a protagonista está a ver bem a situação. A sua vida é realmente falha de reptos ou é antes ela que se recusa a vê-los? Será o seu marido tão tranquilo e contente como ela pensa? Os seus filhos sempre colados aos jogos de computador e com os quais em nenhum momento do livro a mãe interage serão realmente crianças felizes e sem problemas? Não há nenhuma notícia digna de relevo para descobrir e relatar nos cantões suíços?
 Pequenas pistas que são lançadas ao longo do livro permitem responder de forma menos peremptória do que é o estado de alma de Linda. Mas a dúvida nunca se instala nela. E, por isso, conclui que tem de encontrar uma solução que lhe permita desfrutar da sua vida perfeita e da qual não quer abrir mão. A estrutura do livro permite-nos acompanhar as várias soluções que aventa (todas de forma superficial) até chegar ao núcleo da história que é o que lhe dá o título. Vivemos a história da sua paixão e há um momento no livro em que a vida da sua protagonista parece ir desmoronar-se. É um momento muito breve e a sua frustração acaba por nos deixar desiludidos. É que seria interessante ver o modo como a protagonista lidaria com a fracturação da vida tal como a conhece. Mas isso não sucede e ela acaba por ser salva, antes ainda de correr qualquer verdadeiro risco. Em termos imediatos, pelo seu marido (que até lhe permite um vislumbre de que o seu contentamento não é espontâneo ou, pelo menos ser reservas, pista que a protagonista decide não explorar). Mas em momento ulterior por uma epifania. É um momento pessoal, claro. Mas não inédito. A sua receita para contrariar o tédio é a mais antiga do mundo. E os seus efeitos práticos até foram estudados por Mihaly Csikszentmihalyi no seu livro Fluir. A questão que permanece é o que fazer nos intervalos. Mas essa é uma pergunta a que cada um de nós tem de responder como pode ou como a vida o deixa. Todos os dias. O que também seria curioso ver a protagonista deste livro tentar fazer. Talvez num próximo volume.