segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Rei do Monte Brasil, Ana Cristina Silva



Sabemos que a glória neste mundo é transitória. Hoje cavalgando o sucesso, amanhã atirados para um canto, esquecidos de tudo e de todos. O Rei do Monte Brasil é mais uma ilustração dessa máxima, profusamente ilustrada na nossa história.
O livro acompanha o tempo final de dois homens: Gurgunhana e Mouzinho de Albuquerque. O primeiro foi um poderoso régulo africano que procurou manter um estatuto de alguma independência apesar das investidas portuguesas e inglesas. O segundo foi um homem do exército português novecentista com vasta carreira em Moçambique. Foram adversários e o segundo acabou por subjugar o primeiro em nome de D. Carlos. Em comum tinham o gosto pelo poder. E a vida reservou-lhes a ambos um final parecido longe desse gosto e da glória de que chegaram a desfrutar. São os últimos passos de cada um e as recordações que guardam dos tempos em que as suas vidas eram diferentes que constituem o tema central deste livro.
Este é um romance histórico em que a autora procura levar-nos numa viagem ao interior de cada um destes homens. No que a Mouzinho de Albuquerque diz respeito a parte mais interessante é a introspecção que vai fazendo no que é o último dia de sua vida, embora seja pena que não se desenvolva um pouco mais a sua interioridade, em particular a paixão que aparentemente nutria por D. Amélia. Já no caso de Gurgunhana é traçado um fresco sobre o que foi a sua infância e juventude, incluindo o grande amor da sua vida. As suas características pessoais, bem como o seu projecto político são expostos com detalhe e vivacidade. E foram as páginas que lhe são dedicadas as que mais gostei do livro.
Mouzinho e Gurgunhana são os narradores e verdadeiramente as únicas personagens do livro. Todos os outros perpassam de forma mais ou menos fugaz pelas páginas desta obra e sempre na visão que deles têm os protagonistas. Este facto e a circunstância de não existirem diálogos, sendo cada capítulo um monólogo, ora de Mouzinho, ora de Gurgunhana, torna o livro de leitura mais difícil. O aspecto mais conseguido é o fresco traçado sobre a história africana, bem como as civilizações que lá existiam antes da chegada dos portugueses. Ficam afastadas as visões simplistas que nos calhavam em sorte na escola. E só por isso já vale a pena conhecer este livro.  

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