segunda-feira, 19 de maio de 2014

Pedro Bezukhov vislumbra o amor (Guerra e Paz)

Há aquele momento na vida em que, ainda derrotados por um qualquer episódio nefasto, vislumbramos uma esperança, qualquer coisa que nos diz cá dentro que a nossa sorte vai mudar. É esse momento precioso que Tolstói descreve de forma magistral para Pedro Bezukhov:

“Estava frio, o céu limpo. Sobre a meia escuridão das ruas, sobre os telhados negros, era o céu nocturno e estrelado. Pierre, olhando apenas para o céu, não sentia a baixeza insultuosa de todas as coisas terrenas, tão longe das alturas em que lhe pairava a alma. Ao entrar na Praça Arbátskaia abriu-se-lhe diante dos olhos o enorme espaço escuro do céu recamado de estrelas. Quase no meio daquele céu, por cima do Bulevar Pretchístenski, estava parado o gigantesco cometa, rodeado por todos os lados de salpicos de estrelas; aquele cometa de 1812 distinguia-se de todas as estrelas por estar mais perto da Terra, pela sua luz branca e pela sua causa comprida e levantada; e, dizia-se, pressagiava horrores e o fim do mundo. Mas aquela estrela clara de longa causa irradiante não provocava em Pierre um sentimento de horror. Pelo contrário, olhava com alegria e lágrimas nos olhos para aquela estrela clara que, tendo percorrido a uma velocidade indizível, na sua trajectória parabólica, os incomensuráveis espaços, parecia, qual flecha espetada na terra, ter-se cravado no ponto do céu negro que escolheu e ficado ali, erguendo energicamente a cauda, luzindo e brincando com a sua luz branca no meio de inúmeras estrelas cintilantes. Parecia a Pierre que esta estrela correspondia plenamente ao que se passava na sua alma aplicada, animada e desabrochando para uma vida nova.”
                                                                             L. Tólstoi Guerra e Paz, Livro II, pág. 429

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