segunda-feira, 12 de maio de 2014

Psicanálise dos contos de fadas, Bruno Bettelheim



          Um dos grandes luxos da vida é o estudo gratuito. Isto é, a possibilidade de nos ocuparmos de um tema apenas porque ele nos interessa e não porque temos de encontrar uma resposta para um problema imediato que alguém nos colocou, designadamente na vida laboral. Foi a esta investigação sem propósito que me dediquei este fim de semana. Tirei da estante A psicanálise dos contos de fadas de Bruno Bettelheim e dediquei-me à leitura do capítulo relativo ao ciclo do animal noivo, bem consciente do privilégio que é ter umas horas para dedicar a tal fim.
            Bettelheim nasceu na Áustria em 1903 e veio a falecer nos Estados Unidos da América. As suas origens judias valeram-lhe um período de cativeiro num campo de concentração nazi. Soltou no âmbito de uma amnistia (1939) rumou a Nova Iorque, aí tendo trabalhado como psicólogo, psicanalista e escritor. Não foi uma figura isenta de controvérsia. Deixou numerosos livros, sendo A psicanálise dos contos de fadas o mais conhecido. Nele analisa as histórias de encantar cuja origem vai muito para além do entretenimento do público infantil a que hoje aparentam estar limitadas. Bettelheim pôs em relevo o carácter iniciático que está subjacente a contos com que todos crescemos, designadamente o Capuchino Vermelho, a Gata Borralheira ou a Branca de Neve. Todas estas histórias têm diferentes versões existentes em diferentes espaços culturais, o que já de si encerra um mistério. Mas, para além disso, seguir o sentido que Bettelheim dá a estes contos e o modo como os descodifica, é um exercício próximo do encantatório. Em determinados momentos sentimos que estamos a descobrir uma parte de nós.
São vários os autores que defendem ser a interpretação de Bettelheim limitada, por ser circunscrita à autonomização afectiva e erótica do ser humano. Há quem sustente que o alcance destes contos vai muito para além dessa dimensão. Pode ser que assim seja. Mas isso não retira interesse às teses de Bettelheim. Apenas convida a encontrar outros pontos de reflexão.
Dediquei a tarde de domingo a ler sobre o ciclo animal-noivo. Que histórias lá estão? O Rei Sapo, o Porco Encantado e a Bela e o Monstro, entre outras. Através delas Bettelheim ensaiou uma reflexão sobre crescimento e desenvolvimento pessoais, esterilidade do narcisismo e o que significa amar o outro. E foi nestas linhas que encontrei resposta para uma pergunta que ainda nem tinha colocado a mim própria. O que só mostra como os livros nos levam longe, mesmo sem sairmos do sofá.
Como disse Eça de Queirós (totalmente insuspeito pois não ia atrás de histórias de encantar) sob manto diáfano da fantasia encontramos a nudez crua da realidade. Por mais improvável que ela seja num domingo à tarde.

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