sexta-feira, 27 de junho de 2014

A poem a day keeps the doctor away: Luís de Camões


            Treinar o desapego é um daqueles objectivos de vida que todos os anos renovo na minha lista de boas intenções. Treinar o desapego é também um daqueles objectivos de vida que todos os anos por alturas de Fevereiro ponho tacitamente de lado. Pode Heraclito de Éfeso ter tido muita razão quando disse que a mesma água não corre duas vezes pelo mesmo  ponto do rio. Eu sou de me apegar às pessoas, às coisas e às situações (as boas, claro). Mas a minha teimosia é contrariada pela vida. E esta é uma semana em que as transformaçõs me cercam por todos os lados. Não vale a pena olhar para o lado e fazer de conta que não é nada comigo. Talvez por isso me tenha lembrado do velho poema de Luís de Camões arquivado na memória desde os tempos de liceu.

            Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
            muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

            Continuamente vemos novidades,
            diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

            O tempo cobre o chão de verde manto,
            que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.

            E, afora este mudar-se cada dia,
            outra mudança faz de mor espanto,
            que não se muda já como soía.

             




Sem comentários:

Enviar um comentário