Treinar o desapego é um daqueles objectivos de vida que todos os anos renovo na minha lista de boas intenções. Treinar o desapego é também um daqueles objectivos de vida que todos os anos por alturas de Fevereiro ponho tacitamente de lado. Pode Heraclito de Éfeso ter tido muita razão quando disse que a mesma água não corre duas vezes pelo mesmo ponto do rio. Eu sou de me apegar às pessoas, às coisas e às situações (as boas, claro). Mas a minha teimosia é contrariada pela vida. E esta é uma semana em que as transformaçõs me cercam por todos os lados. Não vale a pena olhar para o lado e fazer de conta que não é nada comigo. Talvez por isso me tenha lembrado do velho poema de Luís de Camões arquivado na memória desde os tempos de liceu.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
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