segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O fio da navalha, Somerset Maugham



Imagem retirada daqui
 
O fio da navalha é uma das obras magnas de Somerset Maugham, o autor inglês que mais li na minha adolescência. É também um livro a que regresso periodicamente, contrariando a máxima de que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes. Aliás, ainda não consegui perceber essa ideia, nem quanto a locais, nem com as pessoas e muito menos com os livros. Onde sempre me pareceu que não devemos voltar é a lugares, pessoas e livros que nos avinagraram a vida. Mas isto é outra conversa.    
Somerset Maugham nasceu em Inglaterra tendo perdido ambos os progenitores quando era criança. Criado por uns tios ainda muito jovem traçou objectivos para a sua vida: escrever, viver da escrita e viajar. E foi mesmo isso que fez. Não tinha pretensões quanto a ser um grande escritor e foi mesmo desvalorizado pela crítica. Mas foi também o mais bem pago escritor da sua época. O seu sucesso começou a traçar-se logo com o lançamento do seu primeiro livro e foi de tal ordem que o levou a abandonar a carreira como médico e dedicar-se à escrita.
 O seu grande talento (como ele mesmo reconheceu) era a capacidade de relatar os episódios a que assistia ou que os seus conhecidos lhe contavam, sendo as confidências cada vez mais abundantes à medida que ia firmando os seus créditos como autor. A sua própria vida está na base de Servidão Humana a outra das suas grandes obras, existindo diversos episódios autobiográficos. E o seu primeiro livro, Lisa, a Pecadora foi baseado nas experiências vividas como médico nos bairros mais pobres de Londres.
O título que dá nome a este livro é retirado de uma obra espiritual hindu Kata Upanixade onde se lê: “difícil é andar sob o aguçado fio da navalha; é árduo, dizem os sábios, é o caminho da salvação”.
Em O fio da navalha há duas personagens muito especiais que parecem a antítese uma da outra: Elliott e Larry Darrell. Num primeiro momento, Elliott parece um snobe e uma espécie de arrivista social. Mas Somerset Maugham consegue ver e dar-nos a ver para além disso. E a imagem que fica é a de um homem sensível às coisas mundanas, sem dúvida, mas com um forte sentido de família e um coração generoso.
É através de Elliott que o narrador (que é o próprio autor) conhece Larry Darrell a personagem principal do livro. Darrell é-nos apresentado como um aviador que após ter participado na I Guerra Mundial regressa para junto dos amigos em Chicago. Contudo, as experiências que viveu e em particular a morte de um colega, têm sobre ele uma influência muito forte, acabando por o conduzir num percurso sem destino marcado. Darrell pretende compreender a vida, o mal e o que move os seres humanos. Nessa busca vagueia pelo mundo à procura de respostas para o que são, diria uma mente mais pragmática, questões irresolúveis. É esse mesmo o entendimento de Isabel, sua noiva, cujo percurso vamos acompanhando. Claro que a circunstância de não ser possível dar uma resposta única e universal para aquelas grandes questões não invalida o mérito de quem as procura ainda que como soluções limitadas à sua própria vida. Mas Darrell vai mais longe e é depois de uma longa estadia na Índia que encontra o seu propósito de vida. Este livro foi publicado em 1944 e por isso é bem anterior ao início do fascínio dos ocidentais pela Índia a que ainda hoje assistimos. Aquando da sua publicação a imprensa e o público especularam sobre quem era o homem que inspirou a personagem de Larry tendo sido aventadas algumas hipóteses nunca confirmadas pelo autor nem pelos visados.  
A escrita de Somerset Maugham é viva e descomplexada. A acção percorre vários anos e acompanhamos os personagens nas diferentes opções que vão traçando. O narrador não é um moralista pelo que não toma opção por um ou outro dos caminhos escolhidos por cada um das personagens. Existe nele um pequeno traço que não chega a ser maldade, mas antes uma certa malícia no modo como não permite que as pessoas com quem se cruza tenham grandes ilusões sobre si próprias. Mas isso, pelo menos para quem só trava conhecimento com o escritor através do livro, está longe de ser um defeito.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Autobiografia, Agatha Christie


           A autobiografia é um género literário difícil. Quando falamos ou escrevemos sobre nós próprios manter a objectividade é complicado. Por um lado, um entusiasmo demasiado evidente com a sua vida pode levar a que o autor pareça pomposo e convencido. Mas uma excessiva modéstia também não cai bem. Afinal, se está a escrever a história da sua vida algum mérito reconhecerá a si mesmo.
           Um dos exemplos mais felizes de autobiografia que conheço é o de Agatha Christie. O gosto em ler a sua história de vida assentou para mim em três aspectos. O primeiro prende-se com o facto de ser uma admiradora da sua obra literária. Claro que ler  a autobiografia de alguém que não apreciamos ou que desconhecemos é uma tarefa mais ingrata e que de certeza aguça o sentido crítico. Mas mesmo quem não aprecie particularmente os romances policiais desta autora inglesa, pode vir a gostar do modo como ela escreveu esta sua biografia. Isso resulta da autora conseguir um equilíbrio entre a narração dos seus efeitos (que não valoriza excessivamente, mas não impede que “falem por si mesmos”) e o que nos revela da sua vida pessoal. Parece-me, aliás, que a sua capacidade de entrelaçar os vários episódios da sua vida de uma forma natural e clara é a grande mais valia da autobiografia que escreveu. Narra tudo de uma forma natural. É certo que terá deixado muita coisa por contar. Mas quando se lê o livro fica-se com a sensação de que quanto ao que escolheu partilhar com os leitores optou por um registo verdadeiro em que não houve espaço para grandes embelezamentos ou ajustes de contas.  
Agatha recorda a sua família e infância e a partir daí desenvolve o relato da sua vida. À medida que lemos o seu relato vamos acompanhando a vivência de uma rapariga inglesa da classe média alta do início do século XX. A sua experiência como voluntária durante a I Guerra Mundial, os seus primeiros amores e o modo como começou a escrever e gradualmente obteve reconhecimento público.
 Partilha também a sua experiência como escritora (a forma como as ideias surgem e as dificuldades da escrita) e o modo como construiu as suas personagens mais conhecidas, Hercule Poirot e Miss Marple, declinando a sugestão que lhe foi feita diversas vezes de criar uma história em que ambos se encontrassem. Diz que provavelmente os dois se detestariam mutuamente. Revela também sobre as consequências do sucesso económico que os seus livros lhe proporcionaram. Mas talvez o aspecto mais cativante do livro seja a forma como relata a sua vida pessoal, designadamente a sua vivência doméstica, experiência como mãe e a vida com o seu primeiro marido Archibald Christie, que sempre desvalorizou as suas investidas literárias e lidou mal com o sucesso subsequente das mesmas. As páginas em que descreve o final do casamento de ambos são tocantes e tendo em conta a geração a que a escritora pertence a abertura com que escreve é ainda mais singular. Acompanhamo-la ainda já depois do seu segundo casamento nas suas experiências à volta do mundo que lhe permitiram recolher material para vários dos seus livros mais conhecidos (por exemplo, Morte no Nilo ou Morte entre Ruínas).
            Nestes tempos em que estão em voga os policiais nórdicos há quem desvalorize as obras de Agatha Christie considerando-as algo previsíveis e formuladas de um acordo com um modelo rígido. Pela minha parte, continuo a gostar de reler os seus livros policiais, designadamente os dois que indiquei acima. Acho que demonstram um conhecimento muito forte da natureza humana e de aspectos que talvez sejam imutáveis nos seres humanos. Quanto à autobiografia só posso dizer que para além de ter apreciado o estilo literário deu-me vontade de conhecer pessoalmente Agatha Christie. Tenho a certeza de que ela iria ter muito para me ensinar. E não estou a pensar em como escrever romances policiais.