quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Autobiografia, Agatha Christie


           A autobiografia é um género literário difícil. Quando falamos ou escrevemos sobre nós próprios manter a objectividade é complicado. Por um lado, um entusiasmo demasiado evidente com a sua vida pode levar a que o autor pareça pomposo e convencido. Mas uma excessiva modéstia também não cai bem. Afinal, se está a escrever a história da sua vida algum mérito reconhecerá a si mesmo.
           Um dos exemplos mais felizes de autobiografia que conheço é o de Agatha Christie. O gosto em ler a sua história de vida assentou para mim em três aspectos. O primeiro prende-se com o facto de ser uma admiradora da sua obra literária. Claro que ler  a autobiografia de alguém que não apreciamos ou que desconhecemos é uma tarefa mais ingrata e que de certeza aguça o sentido crítico. Mas mesmo quem não aprecie particularmente os romances policiais desta autora inglesa, pode vir a gostar do modo como ela escreveu esta sua biografia. Isso resulta da autora conseguir um equilíbrio entre a narração dos seus efeitos (que não valoriza excessivamente, mas não impede que “falem por si mesmos”) e o que nos revela da sua vida pessoal. Parece-me, aliás, que a sua capacidade de entrelaçar os vários episódios da sua vida de uma forma natural e clara é a grande mais valia da autobiografia que escreveu. Narra tudo de uma forma natural. É certo que terá deixado muita coisa por contar. Mas quando se lê o livro fica-se com a sensação de que quanto ao que escolheu partilhar com os leitores optou por um registo verdadeiro em que não houve espaço para grandes embelezamentos ou ajustes de contas.  
Agatha recorda a sua família e infância e a partir daí desenvolve o relato da sua vida. À medida que lemos o seu relato vamos acompanhando a vivência de uma rapariga inglesa da classe média alta do início do século XX. A sua experiência como voluntária durante a I Guerra Mundial, os seus primeiros amores e o modo como começou a escrever e gradualmente obteve reconhecimento público.
 Partilha também a sua experiência como escritora (a forma como as ideias surgem e as dificuldades da escrita) e o modo como construiu as suas personagens mais conhecidas, Hercule Poirot e Miss Marple, declinando a sugestão que lhe foi feita diversas vezes de criar uma história em que ambos se encontrassem. Diz que provavelmente os dois se detestariam mutuamente. Revela também sobre as consequências do sucesso económico que os seus livros lhe proporcionaram. Mas talvez o aspecto mais cativante do livro seja a forma como relata a sua vida pessoal, designadamente a sua vivência doméstica, experiência como mãe e a vida com o seu primeiro marido Archibald Christie, que sempre desvalorizou as suas investidas literárias e lidou mal com o sucesso subsequente das mesmas. As páginas em que descreve o final do casamento de ambos são tocantes e tendo em conta a geração a que a escritora pertence a abertura com que escreve é ainda mais singular. Acompanhamo-la ainda já depois do seu segundo casamento nas suas experiências à volta do mundo que lhe permitiram recolher material para vários dos seus livros mais conhecidos (por exemplo, Morte no Nilo ou Morte entre Ruínas).
            Nestes tempos em que estão em voga os policiais nórdicos há quem desvalorize as obras de Agatha Christie considerando-as algo previsíveis e formuladas de um acordo com um modelo rígido. Pela minha parte, continuo a gostar de reler os seus livros policiais, designadamente os dois que indiquei acima. Acho que demonstram um conhecimento muito forte da natureza humana e de aspectos que talvez sejam imutáveis nos seres humanos. Quanto à autobiografia só posso dizer que para além de ter apreciado o estilo literário deu-me vontade de conhecer pessoalmente Agatha Christie. Tenho a certeza de que ela iria ter muito para me ensinar. E não estou a pensar em como escrever romances policiais.
           

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