sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar (I)



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            “Não esperava, de todo. Contava que umas dez pessoas lessem o livro. Nunca estou à espera que alguém leia os meus livros pelo simples facto de ter a impressão de não me ocupar de coisas que possam interessar muito à maioria das pessoas.” – Foi assim que Marguerite Yourcenar comentou o sucesso do livro Memórias de Adriano na longa entrevista que concedeu a Mathieu Galey (reunida no livro De Olhos Bem Abertos).  
            Marguerite nasceu em Bruxelas em 1903. Interessou-se desde pequena pelo estudo da antiguidade clássica. O seu pai, já entrado nos anos quando ela nasceu e viúvo, acompanhou o seu crescimento de perto, encorajando-a nas suas leituras e no desejo de ser escritora. Yourcenar é descrita como sendo confiante nas suas capacidades, ambiciosa em matéria de carreira e com um gosto pelo secretismo. Sofreu um golpe quando depois de se ter preparado para os exames em casa (nunca frequentou a escola tradicional) não conseguiu ser admitida na Sorbonne. Porém, rapidamente se recompôs, tendo todo o apoio de seu pai. A tal ponto que foi ele quem financiou a publicação do seu primeiro livro.
O projecto de escrever sobre a vida de Adriano também surgiu cedo na vida de Marguerite. O manuscrito original foi escrito quando tinha pouco mais de 20 anos e era centrado na vida de Antínoo, o jovem amado e amante de Adriano. Este trabalho, como outros esboços, acabou por ficar numa mala deixada por Marguerite Yourcenar na Suíça antes de ir para os Estados Unidos da América no início da II Guerra Mundial. Só em 1948 Marguerite a recuperou. Até lá, e na sequência da sua ida para os Estados Unidos da América com Grace Frick, tinha estado mergulhada numa crise de adaptação à vida norte-americana, agravada pelas dificuldades em encontrar trabalho remunerado que lhe permitisse garantir a sua sempre prezada independência. Na Europa a publicação de Golpe de Misericórdia, Alexis e Denário de Sonho tinham-lhe dado alguma visibilidade. Mas a mesma não tinha reflexos em território americano. Estas contrariedades levaram mesmo a que caísse num estado depressivo de que só saiu quando compreendeu que tinha chegado o momento de escrever a história de Adriano.
A primeira pergunta que nos podemos colocar é porquê Adriano de entre tantas personagens históricas interessantes e com vidas para contar. A resposta não pode ser unívoca. A própria Marguerite equacionou outras opções. Afastou a possibilidade de ter como protagonista uma mulher. Não só nesta mas em todas as suas outras obras. Os protagonistas são sempre homens e homossexuais, no que os leitores e críticos sempre quiseram ver mais do que uma coincidência. Esta opção gerou-lhe também inimizades entre as feministas. Bem menos problemática foi a sua opção em colocar de lado um outro protagonista em que pensou - Omar Khayyam, poeta, matemático e astrónomo persa dos séculos XI e XII, autor de Rubaiyat. A hipótese de escrever sobre Omar foi afastada por Marguerite por ele ser um contemplativo e ela não ter conhecimentos suficientes de cultura e língua persa.
            Marguerite explicou a sua opção. Não hesitou em considerar Adriano um génio com uma obra notável no plano admistrativo, militar e legislativo. Na entrevista a Matthieu Galey equipara-o mesmo a um homem do Renascimento. Não era cristão, nem pagão, manifestando tolerância para com as convicções religiosas, ainda que não lhes desconhecesse os perigos para o império. A morte de Antínoo levou-o a uma terceira via. Esmagado pela dor, criou a sua própria religião, homenagem ao amante morto, com um culto póstumo que obteve adesão em diferentes pontos do império.
É precisamente essa relação amorosa em vida e em morte que configura o traço específico de Adriano. Aliás, é bom recordar que o interesse de Marguerite começou por centrar-se em Antínoo para depois se alargar e reposicionar em Adriano. Não esteve sózinha nesse interesse primeiro. É quase paradoxal que uma escritora apontada como intelectualizada e cerebral tenha escrito este grande livro assenta numa história de amor. Marguerite protegeu-se deste juízo, chamando à atenção para o facto de cada leitor se identificar com aspectos do livro que lhe recordam a vida experimentada ou que se deseja viver. Mas a própria autora reconheceu que as páginas dedicadas a Antínoo são das que mais lhe foram citadas pelos muitos leitores que lhe escreveram. A dor de Adriano pela suicídio do seu amado inspirou outros artistas incluindo Fernando Pessoa que escreveu o poema Antínoo.

 

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