quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Play it again, Jane!



 
Matchpoint foi uma revisitação de Crime e Castigo. Um eléctrico chamado desejo inspirou Blue Jasmine. Magia ao Luar tem a influência do mais amado dos romances escritos por Jane Austen. Isso é visível logo nos traços principais do protagonista masculino cujas qualidades humanas são prejudicadas por um orgulho desmedido pelas suas capacidades intelectuais e por uma visão intrincadamente lógica e racional da vida. Não será apenas por coincidência que Stanley Crawford é interpretado por Colin Firth, Mr. Darcy na melhor adaptação de Orgulho e Preconceito que conheço. A protagonista feminina tem também traços que a aproximam de Elisabeth Bennet ainda que de forma menos óbvia. Emma Stone interpreta uma rapariga alegre e que, apesar de um ou outro deslize, tem um bom coração. Mais importante ainda: não se deixa atemorizar pela propalada inteligência de Crawford, nem pelo seu manifesto propósito de a desmascarar. A sua atitude descontraída é um desafio irresistível para o rígido Mr. Crawford.
Se os indícios vão aparecendo ao longo do filme é aquando do pedido de casamento que as dúvidas desaparecem. Mr Darcy é com certeza o protagonista do mais ardente e desastroso pedido de casamento da história da literatura ocidental:
“O espanto de Elisabeth foi tão grande que não a deixou proferir palavra. Este silêncio encorajou-o e a confissão prosseguiu. Desabafou, disse-lhe tudo quanto sentia, mas, nessa declaração o amor confundia-se com o orgulho. Sem querer, revelava-lhe a noção que tinha da inferioridade dela, quanto o raciocínio havia lutado contra o sentimento, como considerava vexatória uma aliança com semelhante família e todas estas revelações feitas com um ardor no qual, involuntariamente, deixava adivinhar a sua dor, não eram de molde a favorecê-lo.”
Não é preciso ter muita imaginação para perceber a resposta dada a um tal pedido de casamento. O de Crawford guia-se pelos mesmos padrões e tem o mesmo resultado. Mas Darcy e Crawford não estão para sempre perdidos pois o amor, pelo menos na arte, serve para nos abrir os olhos para o verdadeiro sentido da vida.
E no final da história o que aqui se vê é mais um triunfo de Miss Austen... Orgulho e Preconceito teve imediato sucesso quando foi publicado em 1813. E em pleno século XXI a sua popularidade mantém-se intacta. Mark Twain (cujos livros têm andado afastados das adaptações televisas ou do cinema) deve estar a dar voltas na tumba!

2 comentários:

  1. Absolutamente brilhante. Gostei muito do filme, apesar de...

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  2. um romance intemporal. como disse recentemente um personagem de uma famosa sitcom americana The Bing Bang Theory: "Pride and Prejudice is a flawless work of genius. He’s proud, she’s prejudiced, it just works.”

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