terça-feira, 9 de setembro de 2014

Uma escuridão bonita, Ondjaki

Ondjaki
              
            A escuridão e a noite são muitas vezes associadas a acontecimentos funestos e ao medo. Quando somos pequenos é à noite e de luz apagada que temos medo que o papão venha. Na adolescência é a vez de os pais terem receios dos perigos das saídas à noite sem vigilância e que acabam a desoras. E a própria sabedoria popular nos inculca essa visão pouco abonatória como se pode ver em aforismos como “quem de noite quer andar o caminho quer errar” ou “noite perdida nunca é restituída”. Mas a escuridão também pode ser um lugar de mistérios luminosos e de descobertas de uma vida. E torna-se então bonita.
            Uma escuridão bonita é um pequeno livro que encerra duas obras: as palavras de Ondjaki e as ilustrações de António Jorge Gonçalves. Foi o último livro que li nas férias. A acção decorre durante algumas horas de uma noite angolana e tem como protagonistas dois adolescentes a ganharem coragem para o primeiro beijo. Dizer isto é dizer tudo e deixar tudo por revelar. O encanto deste livro reside na beleza das palavras, nas frases que são poemas em prosa. Saber o que acontece na história não é o mais importante. Essenciais são as palavras cheias de figuras de estilo e combinações inesperadas (por exemplo, na página 75, “Eu sorri porque continuava na vontade de um beijo. Ela sorriu porque reparou nos quatro dedos do pé esquerdo da minha avó. Os meus olhos sorriram porque tinham tocado os cabelos dela”.) Ao lado das palavras há as ilustrações de António Jorge Gonçalves que só a aparentemente são simples. Na verdade, estão cheias de detalhes de que nos vamos apercebendo à medida que as vemos uma e outra vez. Palavras e ilustrações fazem deste livro uma pequena história de encantar que surpreende e emociona. 

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