segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Embroideries, Marjane Satrapi










Depois de uma incursão no 25º Amadora BD  terminei o fim de semana a ler Embroideries (à letra algo como "bordados"), emprestado por uma amiga. Depois de Persépolis, onde contava a história da sua infância no Irão e da sua vinda para a Europa, Marjane Satrapi continua a recorrer ao baú de memórias para escrever os seus romances gráficos. Neste seu livro, publicado há mais de 10 anos, Satrapi relata e ilustra um serão em casa da avó com mulheres de várias gerações. O que emerge das conversas travadas é o confronto entre um modo antigo de ser e as expectativas contemporâneas com toda a sua força apesar do clima político vigente naquele país. O livro tem um tom leve e bem humorado. Mas isso não impede que quem vive numa sociedade aberta e democrática perceba que são abordados temas que nada têm de ligeiro para quem não pode fazer opções de vida com a mesma liberdade: a vontade  de estudar e trabalhar para assegurar a independência, a rejeição dos casamentos arranjados, a vida sexual, as expectativas de cada uma e o que é (ou foi) a realidade conjugal com que se deparou. Da leitura deste livro fica a convicção de que as pessoas são muito mais parecidas do que os regimes políticos antagónicos gostam de fazer crer. 
           Este livro foi traduzido no Brasil mas entre nós só Persépolis está disponível em português. O que é pena. A obra de Satrapi como ilustradora e escritora merece outra atenção.  

   


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A amizade nos livros


Imagem retirada daqui



Um dos temas mais tratados em toda a literatura é o amor romântico. A nascer, contrariado por terceiros, em crise e a fenecer. A predileção por este tema não surpreende. Mas há outros sentimentos que enriquecem a nossa vida e que têm também sido celebrados e analisados pela literatura. Não sei se isto é sinal de que estou a amadurecer ou simplesmente a envelhecer. Certo é que gosto cada vez mais de livros que enaltecem a amizade ecoando o lugar que ela merece nas nossas vidas. Os amigos são um apoio, um elemento de mudança e transformação nas nossas vidas. E como ocorre com o amor romântico também as amizades experimentam dificuldades. Por tudo isto, deixo hoje a indicação de alguns livros em que amizade assume protagonismo, ainda que numa primeira leitura isso possa escapar-nos.
O primeiro é Chocolate de Joanne Harris. Narra a história da misteriosa Vianne Rocher que chega a uma vila perdida de França para abrir uma chocolataria. Grande parte da ação centra-se no seu conflito com os conservadores do local que vêm nos chocolates a porta aberta para uma existência de prazer em que cada um faz o que quer. Mas, para além desse conflito e da intriga romântica, o livro mostra ainda como as amizades nos tornam mais fortes ao ponto de ganharmos força para mudar de vida. É a amizade de Vianne com Josephine Muscat que dá a esta a coragem para deixar o marido agressivo. E é também a amizade que permite a Armande Voizin e ao seu neto retomarem a sua relação, tendo como porto de abrigo a chocolataria. O chocolate é apenas um pretexto para criar e nutrir relações humanas, incluindo a amizade.
Ler Lolita em Teerão de Azar Nafisi é um livro de memórias onde a amizade tem um papel central. Auto-biográfico, narra a história de um clube de leitura criado pela autora após ter sido expulsa do seu lugar de professora na Universidade de Teerão na sequência da chegada ao poder dos fundamentalistas islâmicos. Os livros são o elemento que a liga às suas antigas alunas e é através deles que conseguem manter a sanidade numa sociedade em que, apenas por serem mulheres, passaram a não ter direitos. Ainda no domínio do registo biográfico tenho de referir Amigos Improváveis a história da amizade entre um milionário que fica tetraplégico e o seu assistente pessoal, narrada pelo primeiro (Philippe Pozzo di Borgo). Tal como Chocolate também este foi adaptado para o cinema.
O valor da amizade é também aflorado na banda desenhada Rugas de Paco Roca. O tema principal é o envelhecimento e acção centra-se num lar de terceiro idade. Mas a amizade entre dois utentes acaba por ser o mais comovente de um livro que nos toca de forma indelével.  Uma última sugestão na área do ensaio e de autoria portuguesa: Nenhum caminho será longo. Aliás, o título é retirado do provérbio japonês “ao lado do meu amigo nenhum caminho será longo”. Concorde-se ou não com a perspetiva religiosa do livro de José Tolentino Mendonça esta é uma reflexão sobre a amizade que vale a pena conhecer.

(Este artigo foi também publicado na revista Justiça com A, cujo link pode ser seguido aqui).  





quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A poem a day keeps the doctor away: Duas dúzias de coisinhas à toa que deixam a gente feliz, Otávio Roth


Imagem retirada aqui


Passarinhos na janela
pijama de flanela
brigadeiro na panela.
Gato andando no telhado
cheirinho de mato molhado
disco antigo sem chiado.
Pão quentinho de manhã
dropes de hortelã
o grito do Tarzan.
Tirar sorte no osso
jogar pedrinha no poço
um cachecol no pescoço.
Papagaio que conversa
pisar em tapete persa
eu te amo e vice-versa.
Vaga-lume aceso na mão
dias quentes de verão
descer pelo corrimão.
Almoço de Domingo
revoada de flamingo
herói que fuma cachimbo.
Anãozinho no jardim
lacinho de cetim
terminar o livro assim.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Os livros favoritos das top-models do momento






Longe vão os tempos em que ser modelo era quase sinónimo de se ter sido pouco abençoado no capítulo da inteligência e  das escolhas culturais. Os preconceitos têm sido combatidos com persistência. E se indústria da moda continua a gerar críticas devido aos padrões de beleza que impõe, não é menos verdade que dentro dela há cada vez mais lugar à diversidade. Não só no aspecto físico, mas nas escolhas e opções de vida. Os que aspiram aos lugares cimeiros nos tops de modelos não aceitam ser rotulados como ocos ou coisa ainda menos edificante.
A Harpers Bazaar publicou recentemente as escolhas literárias  de quem anda pelas principais passerelles do mundo, acompanhadas de fotografias que têm uma dupla virtude. Desde Paulina King (que escolheu A culpa é das estrelas) passando por Dasha Gold (que optou por indicar Dostoiveski), várias são as modelos que desmontam os cenários de sonho dos desfiles e mostram formas produtivas de passar os tempos mortos entre uma sessão de fotográfica e outra. Vale a pena conhecer estas sugestões mesmo que não estejamos a caminho de qualquer casting.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O ano do pensamento mágico, Joan Didion





Joan Didion e o marido John Dunne



A vida transforma-se rapidamente. A vida muda num instante. Sentamo-nos para jantar e a vida que conhecemos acaba de repente.
Todos sabemos que esta frase encerra uma grande verdade. A natureza humana faz com que andemos por aí a reclamar e choramingar por muitas e muitas coisas que na verdade não são assim tão importantes. Ou, como me diz uma amiga, são first world problems. Mas mesmo para aqueles de nós que transpõem a difícil barreira que separa o viver do simples existir nem sempre nos apercebemos do quão precioso é o que temos e de como pode acabar num segundo.
Nascida em 1934 Didion é uma jornalista, ensaísta e ficcionista norte-americana. Escreveu textos como On self respect e On keeping a notebook que, a meu ver, deviam ser de leitura obrigatória. O ano do pensamento mágico, com o qual venceu o prémio National Book Award, é um ensaio autobiográfico onde com extraordinária precisão e sensibilidade a autora fala sobre o primeiro ano subsequente ao falecimento do seu marido. Joan e John Gregory Dunne estiveram casados durante 40 anos. Um dia quando se preparavam para jantar, sentiu-se mal, desmaiou e morreu. Didion descreve a dor da perda e o consolo agridoce das recordações com uma precisão intelectual que não exclui o sentimento, uma capacidade rara na escrita. O termo "pensamento mágico" é usado no sentido antropológico, como uma espécie de ritual que, se acompanhado das acções certas, pode conduzir a uma reversão de um acontecimento que, num plano estritamente lógico, não pode ser alterado. É esse o caso da morte. E, no entanto, quando lemos as palavras de Didion, quantos de nós não recordamos a dificuldade em esvaziar o quarto de um ente querido falecido ou em dar as suas roupas? Como se tais gestos o fossem impedir de regressar. Numa sociedade como a nossa, em que a morte está escondida embora insista em irromper aqui e ali, o livro de Didion é uma leitura extraordinária. Não vale a pena pensar que nos prepara para o que quer que seja. Para a morte de quem amamos não há preparação possível. No entanto, faz-nos colocar algumas coisas em perspectiva. 
         Quando li este relato autobiográfico lembrei-me das palavras de Tennyson:

 I hold, whatever befall
I fell it when I sorrow most
'Tis better to have loved and lost
Than never to have loved at all

(tradução:
Creio-o, o que quer que aconteça
Sinto-o quando sofro mais
É melhor ter amado e perder
Do que nunca ter amado de todo)

Habitualmente surgem apenas os dois últimos versos mas a verdade é que o seu verdadeiro sentido, como o das palavras de Didion, só é ganho quando as lemos no seu contexto.


   

   



terça-feira, 7 de outubro de 2014

A poem a day keeps the doctor away: um poema de Nuno Júdice sobre as alegrias do reverdecimento




Imagem obtida aqui
  
             Em parte incerta (ver aqui ) é a adaptação cinematográfica do romance homónimo de Gillian Flyn, um policial negro sobre duas pessoas que à primeira vista parecem um casal normal. Entre expectativas frustradas e segredos nunca partilhados acabamos por perceber que afinal ... não são. Uma vez que já tinha lido livro e que sabia que o filme lhe era fiel não foi uma surpresa. Ainda assim, uma pessoa sai algo desencorajada da sala de cinema. Mas quem tem um coração romântico como é o meu caso não perde assim a fé só por causa de uns tantos filmezinhos. Felizmente, para os momentos de fraqueza tenho sempre à mão Nuno Júdice sob a forma de livro. Foi a ele que recorri e resultou mais depressa do que o ben-u-ron actua sobre uma dor de cabeça.   
Uma vez que o dia dos namorados ainda vem longe, vou partilhar a minha panaceia, correndo um risco diminuto de ser apodada de pirosa ou coisa pior. Recorda-nos que quando amamos o que ficou para trás deixou de interessar e estamos preparados para reverdecer, como diz o Poeta. Não pode ser de outra maneira por mais que tenhamos desejado estender a nossa armadura junto do altar do cepticismo e prestar-lhe homenagem. 

É pelo teu rosto que as marés passam,
pelos teus lábios que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como o vinho,
e o fogo não queima quando arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura da manhã que se esquece,
no que édito em tudo o que se cala,
e não precisa de ser dito quando amanhece.

Pode o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera ,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,
e todas as folhas mortas reverdeceram.

                                                       Cantiga, in A matéria do poema, Nuno Júdice

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Em modo Jane Austen (um estado de espírito muito perigoso)








               Uma cena marcante de Orgulho e Preconceito. Instado pelo seu amigo Mr. Bingley a ir dançar com Miss Bennet, Mr. Darcy, com o seu proverbial gosto por afirmações decisivas, diz-lhe que está a perder o seu tempo. Ainda que suportável Miss Bennet não tem qualidades suficientes para o tentar. A esta soberba e precipitação responde o ditado português “pela boca morre o peixe”. E que sirva de lição aos darcinianos de pacotilha que andam por aí (sim, inventei a palavra agora mesmo).