segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A amizade nos livros


Imagem retirada daqui



Um dos temas mais tratados em toda a literatura é o amor romântico. A nascer, contrariado por terceiros, em crise e a fenecer. A predileção por este tema não surpreende. Mas há outros sentimentos que enriquecem a nossa vida e que têm também sido celebrados e analisados pela literatura. Não sei se isto é sinal de que estou a amadurecer ou simplesmente a envelhecer. Certo é que gosto cada vez mais de livros que enaltecem a amizade ecoando o lugar que ela merece nas nossas vidas. Os amigos são um apoio, um elemento de mudança e transformação nas nossas vidas. E como ocorre com o amor romântico também as amizades experimentam dificuldades. Por tudo isto, deixo hoje a indicação de alguns livros em que amizade assume protagonismo, ainda que numa primeira leitura isso possa escapar-nos.
O primeiro é Chocolate de Joanne Harris. Narra a história da misteriosa Vianne Rocher que chega a uma vila perdida de França para abrir uma chocolataria. Grande parte da ação centra-se no seu conflito com os conservadores do local que vêm nos chocolates a porta aberta para uma existência de prazer em que cada um faz o que quer. Mas, para além desse conflito e da intriga romântica, o livro mostra ainda como as amizades nos tornam mais fortes ao ponto de ganharmos força para mudar de vida. É a amizade de Vianne com Josephine Muscat que dá a esta a coragem para deixar o marido agressivo. E é também a amizade que permite a Armande Voizin e ao seu neto retomarem a sua relação, tendo como porto de abrigo a chocolataria. O chocolate é apenas um pretexto para criar e nutrir relações humanas, incluindo a amizade.
Ler Lolita em Teerão de Azar Nafisi é um livro de memórias onde a amizade tem um papel central. Auto-biográfico, narra a história de um clube de leitura criado pela autora após ter sido expulsa do seu lugar de professora na Universidade de Teerão na sequência da chegada ao poder dos fundamentalistas islâmicos. Os livros são o elemento que a liga às suas antigas alunas e é através deles que conseguem manter a sanidade numa sociedade em que, apenas por serem mulheres, passaram a não ter direitos. Ainda no domínio do registo biográfico tenho de referir Amigos Improváveis a história da amizade entre um milionário que fica tetraplégico e o seu assistente pessoal, narrada pelo primeiro (Philippe Pozzo di Borgo). Tal como Chocolate também este foi adaptado para o cinema.
O valor da amizade é também aflorado na banda desenhada Rugas de Paco Roca. O tema principal é o envelhecimento e acção centra-se num lar de terceiro idade. Mas a amizade entre dois utentes acaba por ser o mais comovente de um livro que nos toca de forma indelével.  Uma última sugestão na área do ensaio e de autoria portuguesa: Nenhum caminho será longo. Aliás, o título é retirado do provérbio japonês “ao lado do meu amigo nenhum caminho será longo”. Concorde-se ou não com a perspetiva religiosa do livro de José Tolentino Mendonça esta é uma reflexão sobre a amizade que vale a pena conhecer.

(Este artigo foi também publicado na revista Justiça com A, cujo link pode ser seguido aqui).  





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