terça-feira, 7 de outubro de 2014

A poem a day keeps the doctor away: um poema de Nuno Júdice sobre as alegrias do reverdecimento




Imagem obtida aqui
  
             Em parte incerta (ver aqui ) é a adaptação cinematográfica do romance homónimo de Gillian Flyn, um policial negro sobre duas pessoas que à primeira vista parecem um casal normal. Entre expectativas frustradas e segredos nunca partilhados acabamos por perceber que afinal ... não são. Uma vez que já tinha lido livro e que sabia que o filme lhe era fiel não foi uma surpresa. Ainda assim, uma pessoa sai algo desencorajada da sala de cinema. Mas quem tem um coração romântico como é o meu caso não perde assim a fé só por causa de uns tantos filmezinhos. Felizmente, para os momentos de fraqueza tenho sempre à mão Nuno Júdice sob a forma de livro. Foi a ele que recorri e resultou mais depressa do que o ben-u-ron actua sobre uma dor de cabeça.   
Uma vez que o dia dos namorados ainda vem longe, vou partilhar a minha panaceia, correndo um risco diminuto de ser apodada de pirosa ou coisa pior. Recorda-nos que quando amamos o que ficou para trás deixou de interessar e estamos preparados para reverdecer, como diz o Poeta. Não pode ser de outra maneira por mais que tenhamos desejado estender a nossa armadura junto do altar do cepticismo e prestar-lhe homenagem. 

É pelo teu rosto que as marés passam,
pelos teus lábios que voam gaivotas,
pelos teus dedos em que a luz perpassa,
pelos teus olhos que me traçam as rotas,

que este barco encontra o caminho,
que este dia descobre que não é tarde,
que as palavras se bebem como o vinho,
e o fogo não queima quando arde.

É no que me dizes quando a noite fala,
no que perdura da manhã que se esquece,
no que édito em tudo o que se cala,
e não precisa de ser dito quando amanhece.

Pode o amor tantas vezes sentido,
ou só aquilo que vive no coração,
pode ser o que pensava ter esquecido,
e regressa agora pela tua mão.

Quantas vezes já foi primavera ,
e logo aí as flores morreram:
até ao dia em que nada ficou como era,
e todas as folhas mortas reverdeceram.

                                                       Cantiga, in A matéria do poema, Nuno Júdice

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