segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O ano do pensamento mágico, Joan Didion





Joan Didion e o marido John Dunne



A vida transforma-se rapidamente. A vida muda num instante. Sentamo-nos para jantar e a vida que conhecemos acaba de repente.
Todos sabemos que esta frase encerra uma grande verdade. A natureza humana faz com que andemos por aí a reclamar e choramingar por muitas e muitas coisas que na verdade não são assim tão importantes. Ou, como me diz uma amiga, são first world problems. Mas mesmo para aqueles de nós que transpõem a difícil barreira que separa o viver do simples existir nem sempre nos apercebemos do quão precioso é o que temos e de como pode acabar num segundo.
Nascida em 1934 Didion é uma jornalista, ensaísta e ficcionista norte-americana. Escreveu textos como On self respect e On keeping a notebook que, a meu ver, deviam ser de leitura obrigatória. O ano do pensamento mágico, com o qual venceu o prémio National Book Award, é um ensaio autobiográfico onde com extraordinária precisão e sensibilidade a autora fala sobre o primeiro ano subsequente ao falecimento do seu marido. Joan e John Gregory Dunne estiveram casados durante 40 anos. Um dia quando se preparavam para jantar, sentiu-se mal, desmaiou e morreu. Didion descreve a dor da perda e o consolo agridoce das recordações com uma precisão intelectual que não exclui o sentimento, uma capacidade rara na escrita. O termo "pensamento mágico" é usado no sentido antropológico, como uma espécie de ritual que, se acompanhado das acções certas, pode conduzir a uma reversão de um acontecimento que, num plano estritamente lógico, não pode ser alterado. É esse o caso da morte. E, no entanto, quando lemos as palavras de Didion, quantos de nós não recordamos a dificuldade em esvaziar o quarto de um ente querido falecido ou em dar as suas roupas? Como se tais gestos o fossem impedir de regressar. Numa sociedade como a nossa, em que a morte está escondida embora insista em irromper aqui e ali, o livro de Didion é uma leitura extraordinária. Não vale a pena pensar que nos prepara para o que quer que seja. Para a morte de quem amamos não há preparação possível. No entanto, faz-nos colocar algumas coisas em perspectiva. 
         Quando li este relato autobiográfico lembrei-me das palavras de Tennyson:

 I hold, whatever befall
I fell it when I sorrow most
'Tis better to have loved and lost
Than never to have loved at all

(tradução:
Creio-o, o que quer que aconteça
Sinto-o quando sofro mais
É melhor ter amado e perder
Do que nunca ter amado de todo)

Habitualmente surgem apenas os dois últimos versos mas a verdade é que o seu verdadeiro sentido, como o das palavras de Didion, só é ganho quando as lemos no seu contexto.


   

   



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