terça-feira, 25 de novembro de 2014

Por ocasião do natalício do escritor ...


            Nascido a 25 de Novembro de 1845 na Póvoa do Varzim dispensa apresentações. Um dos maiores (para não dizer o maior) escritor portugês cujos livros deveriam ser património universal. Vivo, interveniente e sempre perspicaz deixou-nos um retrato do país que em certas ocasiões nos parece demasiado actual. O que não pode deixar de incomodar, claro. Uma coisa é o Dâmaso Salcede ou o Conde de Abranhos do século XIX. Outra coisa é dar de caras com os seus lídimos representantes nos nossos dias.
          Eça foi um mestre nas descrições e na construção das personagens. Mas é a ironia que espelhou nos seus textos que é imbatível. Teve também a generosidade de deixar o antidoto para tão pesado veneno. Como bem se lê na sua correspondência a cura para os azedumes da ironia não é a ingenuidade, mas um bem infinitamente mais precioso: “Não se descuide de ser alegre – só a alegria dá alma e luz à Ironia, à Santa Ironia – que sem ela não é mais que amargura vazia.”
         Houve já tentativas várias de recriar o estilo queirosiano. A meu ver, nenhuma foi bem conseguida. E faz-nos falta o Eça, sem dúvida!
                                                                                                       




segunda-feira, 10 de novembro de 2014

As inesgotáveis lições de Miss Austen


            Não é conhecida a Miss Austen grande vida romântica. Mas entre leituras e releituras das suas obras a Flavorwire encontrou quatro conselhos amorosos válidos hoje como no século XIX. Querendo o melhor para quem tem a gentilieza de passar pelo blogue aqui os deixo: a) não se deixem enganar pelas primeiras impressões (positivas ou negativas); b) não se acomodem achando que já não vão encontrar melhor; c) digam o que sentem (isto é, digo eu, nada de hipostasiar a estratégia da indiferença, porque pode sair cara); d) pensem pela vossa própria cabeça.
            Tudo explicadinho aqui para não haver enganos. Mas, como isto do amor é coisa séria, é melhor ir directamente à fonte e aproveitar para ler ou reler, por exemplo, Ema ou Persuasão. O primeiro sobre uma rapariga com demasiadas certezas e o segundo sobre uma rapariga com demasiadas dúvidas. Em ambos os casos com final feliz, o que é sempre animador.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A poem a day keeps the doctor away: Com as gaivotas, Eugénio de Andrade

Imagem extraída daqui


Contente por me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Open - André Agassi



Imagem obtida aqui
 

Lembro-me de Agassi com a sua vasta cabeleira e equipamentos de cores excêntricas a correr pelos courts de ténis há uns anos atrás. Mas não sou apreciadora daquele desporto pelo que pouco sabia sobre o seu percurso desportivo e pessoal.
Porém, há uns meses comecei a ver comentários em vários blogues ingleses e norte-americanos sobre a sua autobiografia e fiquei curiosa. Por isso, quando a vi à venda traduzida para português não hesitei. Comprei-a e li-a num fim de semana. Na verdade, não foi André Agassi que escreveu o livro ou, pelo menos, não foi apenas ele. Fê-lo com o apoio de J.R.Moehringer jornalista e escritor norte-americano já galardoado com um prémio Pulitzer.
Isso não diminui em nada o mérito de Agassi. Desde logo, porque é ele o primeiro a salientar a importância da contribuição de Moehringer tendo a honestidade de a admitir ao invés de fazer como tantas figuras públicas que optam por contratar escritores fantasma que deixam no anonimato. Por outro lado, a grande dificuldade de qualquer autobiografia é a exposição do seu autor. E Agassi fá-lo de uma forma exemplar. Relata a sua infância marcada pela obsessão do pai pelo ténis e pelas suas exigências quanto à prática daquele exercício. Fala da revolta que sentiu na juventude, do seu desinteresse pela escola (mas não pelos livros) e do modo como saltou para a arena pública com a sua figura algo excêntrica a fazer esquecer as suas capacidades desportivas. Leva-nos aos meandros das competições permitindo-nos recordar nomes que mesmo quem sempre foi pouco interessado no ténis se recorda (Boris Becker, Ivan Lendl, entre outros). Faz-nos perceber o custo de cada vitória e a frustração de cada derrota. Por várias vezes Agassi diz odiar ténis. E não parece que esteja a mentir.
            A capacidade de exposição e reflexão de Agassi extravasa a sua carreira desportiva. Acompanhamos o seu primeiro casamento (em relação a cujas dificuldades não posso deixar de pensar que poderia ter sido um pouco mais discreto), os problemas que teve com consumo de drogas e mesmo o seu receio de estar a cair numa depressão. Acima de tudo é interessante a sua capacidade de compreender que estava num percurso de autoconhecimento em que cometeu erros que reconheceu sem entrar em discursos de autocomiseração. Não se trata de uma obra sombria. Agassi recorda os que o acompanharam no seu percurso, amigos que duram uma vida toda, a crer nas suas palavras. E relata-nos também como percebeu a importância da educação (algo que num primeiro momento menosprezou) na edificação de uma vida. É esta descoberta que o conduz a atividade filantrópica que ainda hoje leva a cabo e lhe traz grande satisfação pessoal. O livro revela também a sua história de amor com um outro nome do ténis, Stefanie Graff. Há no seu relato uma candura e romantismo que me encantou.
Agassi é ainda novo (nasceu em 1970) pelo que podemos esperar uma continuação desta sua auto-biografia daqui a uns anos. Por agora, este livro cativa e faz com que gostemos dele. Não por ser um campeão ou alguém que dá milhões para obras de caridade. Mas porque é como muitos de nós: à procura do seu caminho, com os erros e entorses que isso propicia. E porque a sua história feita de sofrimento e alegria nos dá alento mesmo que nunca tenhamos pegado numa raquete de ténis.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Livros e boa disposição





Imagem obtida aqui


   
           Gosto muito desta frase do Chaplin. Mas a verdade é que há dias em que manter a cabeça à tona já é difícil quanto mais conservar o bom humor. Quando esse estado de espírito toma conta de nós há duas opções literárias. A primeira é aproveitar para mergulhar nos queixumes dos outros. A segunda é pegar num livro que nos devolva a boa disposição. Ou, pelo menos, nos faça esquecer por algumas horas, as dores de alma que nos atormentam.
            Para quem queira seguir a primeira opção digo já, de um saber de experiência feito, que as tristezas da vida (em especial desilusões amorosas, traições no plano laboral e recebimento de correspondência fiscal) são meio caminho andado para digerir Marguerite Duras, Virgílio Ferreira e Dostoievski. Aliás, depois de umas horas de leitura de qualquer obra destes autores vamos sentir-nos os seres humanos mais felizes à face da terra, por comparação com as desgraças sem fim ou lenitivo de que por regra padecem as suas personagens.
          Devo confessar, porém, a minha preferência pela segunda via. E é para facilitar o seu trilho que deixo aqui sugestões de leitura bem dispostas. Algumas serão conhecidas. Mas, porque são muitos os momentos em que precisamos tanto de soltar uma gargalhada como de respirar, nunca é demais elencá-las. Para funcionarem como uma caixa de analgésicos para as dores de cabeça e de alma que por vezes nos visitam.
Começando pelo início sugiro a obra de Apuleio O Burro de Ouro, uma comédia tresloucada sobre um homem que é transformado em asno por uma feiticeira e vai conhecendo os mais estranhos donos, divertindo-nos com as suas aventuras e reflexões. Ter um exemplar de A Fera Amansada de Shakespeare, de O Misantropo ou O doente Imaginário de Molière ou ainda da Farsa de Inês de Sousa do Gil Vicente à mão de semear pode dar-nos o alento necessário para ultrapassarmos esse dia complicado que é a segunda-feira quando não coincide com um feriado. E a companhia de Eça de Queirós é sempre meio caminho andado para nos abstrairmos por um momento dos dramas da vida real. Por mim, as cenas protagonizadas pelo Dâmaso na Tragédia da Rua das Flores ou o jantar de Artur Corvelo na Capital são gargalhada certa.
 Já nos contemporâneos também não faltam nomes para nos animarem. Os autores ingleses são sempre uma boa aposta: Sue Tonwsend (A Rainha e Eu, uma fantasia em que é instaurada a república e a antiga família real inglesa é instalada num bairro social) ou David Lodge (aconselho A Terapia) são exemplos. Ou Alan Bennett com A leitora real, narrando as vicissitudes de Isabel II para conseguir encontrar tempo para o seu vício secreto: a leitura. Como nós, dir-me-ão.
Opções brasileiras: Moacyr Scliar (com a ficção histórica A mulher que escreveu a bíblia) ou Luís Fernando Veríssimo (por exemplo, o livro de crónicas A mesa voadora). E, por fim, escolhas nacionais contemporâneas: Miguel Esteves Cardoso (que consegue a proeza de fazer rir e comover de uma assentada com Amores e saudades de um português arreliado) e Dizem que Sebastião de João Rebocho Pais são duas possibilidades.
E por hoje é isto com a certeza de que muito juízo não tem de ser sinónimo de ausência de riso. E que de ânimo renovado já refeitos dos pequenos grandes males desta vida, poderemos parafrasear o primo Basílio (ainda que com maior sentido moral, espera-se) e gritar A eles como Santiago aos Mouros!