segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Livros e boa disposição





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           Gosto muito desta frase do Chaplin. Mas a verdade é que há dias em que manter a cabeça à tona já é difícil quanto mais conservar o bom humor. Quando esse estado de espírito toma conta de nós há duas opções literárias. A primeira é aproveitar para mergulhar nos queixumes dos outros. A segunda é pegar num livro que nos devolva a boa disposição. Ou, pelo menos, nos faça esquecer por algumas horas, as dores de alma que nos atormentam.
            Para quem queira seguir a primeira opção digo já, de um saber de experiência feito, que as tristezas da vida (em especial desilusões amorosas, traições no plano laboral e recebimento de correspondência fiscal) são meio caminho andado para digerir Marguerite Duras, Virgílio Ferreira e Dostoievski. Aliás, depois de umas horas de leitura de qualquer obra destes autores vamos sentir-nos os seres humanos mais felizes à face da terra, por comparação com as desgraças sem fim ou lenitivo de que por regra padecem as suas personagens.
          Devo confessar, porém, a minha preferência pela segunda via. E é para facilitar o seu trilho que deixo aqui sugestões de leitura bem dispostas. Algumas serão conhecidas. Mas, porque são muitos os momentos em que precisamos tanto de soltar uma gargalhada como de respirar, nunca é demais elencá-las. Para funcionarem como uma caixa de analgésicos para as dores de cabeça e de alma que por vezes nos visitam.
Começando pelo início sugiro a obra de Apuleio O Burro de Ouro, uma comédia tresloucada sobre um homem que é transformado em asno por uma feiticeira e vai conhecendo os mais estranhos donos, divertindo-nos com as suas aventuras e reflexões. Ter um exemplar de A Fera Amansada de Shakespeare, de O Misantropo ou O doente Imaginário de Molière ou ainda da Farsa de Inês de Sousa do Gil Vicente à mão de semear pode dar-nos o alento necessário para ultrapassarmos esse dia complicado que é a segunda-feira quando não coincide com um feriado. E a companhia de Eça de Queirós é sempre meio caminho andado para nos abstrairmos por um momento dos dramas da vida real. Por mim, as cenas protagonizadas pelo Dâmaso na Tragédia da Rua das Flores ou o jantar de Artur Corvelo na Capital são gargalhada certa.
 Já nos contemporâneos também não faltam nomes para nos animarem. Os autores ingleses são sempre uma boa aposta: Sue Tonwsend (A Rainha e Eu, uma fantasia em que é instaurada a república e a antiga família real inglesa é instalada num bairro social) ou David Lodge (aconselho A Terapia) são exemplos. Ou Alan Bennett com A leitora real, narrando as vicissitudes de Isabel II para conseguir encontrar tempo para o seu vício secreto: a leitura. Como nós, dir-me-ão.
Opções brasileiras: Moacyr Scliar (com a ficção histórica A mulher que escreveu a bíblia) ou Luís Fernando Veríssimo (por exemplo, o livro de crónicas A mesa voadora). E, por fim, escolhas nacionais contemporâneas: Miguel Esteves Cardoso (que consegue a proeza de fazer rir e comover de uma assentada com Amores e saudades de um português arreliado) e Dizem que Sebastião de João Rebocho Pais são duas possibilidades.
E por hoje é isto com a certeza de que muito juízo não tem de ser sinónimo de ausência de riso. E que de ânimo renovado já refeitos dos pequenos grandes males desta vida, poderemos parafrasear o primo Basílio (ainda que com maior sentido moral, espera-se) e gritar A eles como Santiago aos Mouros! 



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