quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Open - André Agassi



Imagem obtida aqui
 

Lembro-me de Agassi com a sua vasta cabeleira e equipamentos de cores excêntricas a correr pelos courts de ténis há uns anos atrás. Mas não sou apreciadora daquele desporto pelo que pouco sabia sobre o seu percurso desportivo e pessoal.
Porém, há uns meses comecei a ver comentários em vários blogues ingleses e norte-americanos sobre a sua autobiografia e fiquei curiosa. Por isso, quando a vi à venda traduzida para português não hesitei. Comprei-a e li-a num fim de semana. Na verdade, não foi André Agassi que escreveu o livro ou, pelo menos, não foi apenas ele. Fê-lo com o apoio de J.R.Moehringer jornalista e escritor norte-americano já galardoado com um prémio Pulitzer.
Isso não diminui em nada o mérito de Agassi. Desde logo, porque é ele o primeiro a salientar a importância da contribuição de Moehringer tendo a honestidade de a admitir ao invés de fazer como tantas figuras públicas que optam por contratar escritores fantasma que deixam no anonimato. Por outro lado, a grande dificuldade de qualquer autobiografia é a exposição do seu autor. E Agassi fá-lo de uma forma exemplar. Relata a sua infância marcada pela obsessão do pai pelo ténis e pelas suas exigências quanto à prática daquele exercício. Fala da revolta que sentiu na juventude, do seu desinteresse pela escola (mas não pelos livros) e do modo como saltou para a arena pública com a sua figura algo excêntrica a fazer esquecer as suas capacidades desportivas. Leva-nos aos meandros das competições permitindo-nos recordar nomes que mesmo quem sempre foi pouco interessado no ténis se recorda (Boris Becker, Ivan Lendl, entre outros). Faz-nos perceber o custo de cada vitória e a frustração de cada derrota. Por várias vezes Agassi diz odiar ténis. E não parece que esteja a mentir.
            A capacidade de exposição e reflexão de Agassi extravasa a sua carreira desportiva. Acompanhamos o seu primeiro casamento (em relação a cujas dificuldades não posso deixar de pensar que poderia ter sido um pouco mais discreto), os problemas que teve com consumo de drogas e mesmo o seu receio de estar a cair numa depressão. Acima de tudo é interessante a sua capacidade de compreender que estava num percurso de autoconhecimento em que cometeu erros que reconheceu sem entrar em discursos de autocomiseração. Não se trata de uma obra sombria. Agassi recorda os que o acompanharam no seu percurso, amigos que duram uma vida toda, a crer nas suas palavras. E relata-nos também como percebeu a importância da educação (algo que num primeiro momento menosprezou) na edificação de uma vida. É esta descoberta que o conduz a atividade filantrópica que ainda hoje leva a cabo e lhe traz grande satisfação pessoal. O livro revela também a sua história de amor com um outro nome do ténis, Stefanie Graff. Há no seu relato uma candura e romantismo que me encantou.
Agassi é ainda novo (nasceu em 1970) pelo que podemos esperar uma continuação desta sua auto-biografia daqui a uns anos. Por agora, este livro cativa e faz com que gostemos dele. Não por ser um campeão ou alguém que dá milhões para obras de caridade. Mas porque é como muitos de nós: à procura do seu caminho, com os erros e entorses que isso propicia. E porque a sua história feita de sofrimento e alegria nos dá alento mesmo que nunca tenhamos pegado numa raquete de ténis.


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