sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Guerra e Paz, Leão Tolstói

     
Nem guerra, nem paz, de Woody Allen (inspirado, ainda que vagamente, em Guerra e Paz)

       Quando eu era muito mais nova e seguramente muito mais ingénua a resposta à pergunta “se pudesse escolher qualquer pessoa no mundo com quem gostaria de jantar? seria infalivelmente Leão Tolstói. É uma resposta estranha para uma rapariga de 20 anos mas mostra bem o fascínio que senti por este escritor depois de ter lido Ressurreição, curiosamente a sua última obra. A essa seguiram-se na minha lista Ana Karenina, A Sonata a Kreutzer e A Morte de Ivan Ilitch. Li também diversas biografias. E foi por aí que a dúvida começou a corroer esta paixão aparentemente inabalável. 
           Em primeiro lugar, porque gradualmente tornou-se-me claro que muitas teses que Leão Tólstoi ventilou não foram por si seguidas. O modo como tratou a mulher (que se dedicou totalmente a ele e à sua obra) é apenas um exemplo. A muito sacrificada Sofia cruzava-se com frequência na propriedade rural onde viviam com filhos de servas que tinham a cara chapada e o nariz protuberante do seu marido. Há outras discrepâncias entre as teses que defendeu e a vida que levou que merecem atenção e que contribuíram para algum desencanto da minha parte. Mas se esta assume relevo e a destaco é porque em muitas das suas obras Leão Tolstoi fez uma defesa intransigente das virtudes domésticas e da contenção carnal. E não hesitou em castigar as personagens que se afastavam de tal modelo (o exemplo de Ana Karenina é lapidar).
          Foi, pois, neste estado de espírito que li Guerra e Paz. Fi-lo ao longo de vários meses e intercalando com outros livros. A acção decorre durante a invasão francesa da Rússia. Acompanhamos as campanhas militares e ao mesmo tempo a vida em sociedade durante aquele período. Aliás, o título em russo é Guerra e a Sociedade e não Guerra e PazAs descrições das batalhas e da vida no exército não podem deixar de impressionar. Tólstoi fez carreira no exército o que lhe facilitou aqui o trabalho. Para além disso, apresenta uma descrição colorida e detalhada da vida da aristocracia russa. Por um lado, acompanhamos a vida dos elegantes que discutem em francês política e anedotas mundanas. Vemos o modo como decorre a vida familiar de algumas famílias. Seguimos os passos dos emergentes que lutam para que uma vida aparentemente desafogada possa dar lugar a uma vida efectivamente confortável (sendo o casamento um dos caminhos possíveis, não apenas para as mulheres, mas também para oficiais do exército que ficam elegantes de farda). Por outro, a vida de um nobre da velha cepa, proprietário rural, o pai de Nikolai e Maria, duas das personagens principais. As outras duas são Andrei (irmão de Maria) e Natasha. Há também uma longa fila de personagens secundárias cuja vida vamos seguindo. 
         A leitura desta obra gerou em mim sentimentos ambivalentes. Fiquei feliz por ter conseguido levá-la a cabo (já tinha tentado uma outra vez e desistido ainda no primeiro volume). É um marco para qualquer leitor.  Não tenho dúvidas de que foi longo o período de maturação prévio à sua escrita e difícil a sua elaboração. A sua extensão, a riqueza de detalhes, o número de personagens e o modo como tudo se conjuga de forma harmoniosa é impressionante. Mas não posso dizer que seja que tenha alterado a minha percepção do mundo ou sequer a minha leitura da obra de Tólstoi no seu conjunto. Aliás, tenho de confessar que o desenlace das personagens principais pareceu-me mesmo irritante e pouco natural. Vários comentadores da obra têm posto em relevo que ela é muito mais um ensaio do que um romance. E isso é visível no modo como são construídas as personagens. Não ganham autonomia e estão ali para cumprir uma função. Mesmo Pedro Bezukhov, a mais autónomo, acaba por não se desprender do autor. Através dele e das figuras que com ele contracenam Tolstoi leva a cabo a sua tarefa de endoutrinação, o que é sobretudo visível nas personagens femininas, Maria e Natasha. O que não surpreende. A misoginia de Tolstoi, motivada pela incapacidade de controlar os seus impulsos sensuais, está bem patente nos finais que lhes reservou, aniquilando-lhes totalmente o espírito, num contraste absoluto com o seu retrato inicial. 


1 comentário:

  1. Como sempre talvez seja melhor não conhecer os nossos ídolos.
    Eu gostei do Guerra e Paz principalmente pela descrição das cenas da vida em sociedade: a descrição da morte do conde Bezukhov e contatos de Pierre Bezukhov com a maçonaria foram episódios marcantes.

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