quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Paris





Imagem extraída daqui

Terminei a leitura de Paris nunca se acaba de Enrique Villa Matas. É o relato da juventude de um escritor que vai viver para a capital francesa arrendando o sótão de Marguerite Duras. Um local com pergaminhos por onde passaram nomes grandes da França, incluindo durante a II GM François Miterrand que ali se escondeu do ocupante nazi. O narrador rumou a Paris para ganhar experiência de vida e corpo como escritor, emulando um outro nome das letras, seu ídolo absoluto, Ernest Hemingway. As memórias do escritor americano emblematicamente chamadas A Mouveable Fest (em português Paris é uma Festa) encantam e encantaram gerações de candidatos à vida artística com a descrição do seu quotidiano na capital francesa, recordando nomes como o de Scott Fitzgerald, James Joyce ou Gertrude Stein, com quem Hemingway privou.

Frank Sinatra bem pode cantar as virtudes de Nova Iorque como a cidade onde tudo o que vale a pena acontece. Mas, sobretudo do ponto de vista literário, Paris leva séculos de avanço. O testemunho dessa posição privilegiada surge evidente nas obras de Balzac (Ilusões Perdidas) Stendhall (O vermelho e o negro) ou Zola (A obra). E, em Portugal, é retratado com ironia nos livros de Eça de Queirós, seja através de Dâmaso Salcede na definição do verdadeiro chique, seja na figura de Jacinto, o protagonista de A Cidade e as Serras que se exilou em Paris, na civilização. Ironias à parte Eça de Queirós também passou uma temporada em Paris (e outra em Londres) por força da sua carreira diplomática.
Nos dias de hoje apesar da pulverização da vida intelectual com o aparecimento de várias cidades que reclamam para si o lugar de capital cultural do mundo ocidental Paris continua a resistir. E tem todo um exército de escritores determinados a ajudá-la nesse sentido.
Hemingway escreveu que em Paris foi muito pobre e muito feliz. Mas mais serão os que apenas conseguiram cumprir a primeira parte do desígnio. Villa Matas dá conta da pobreza e solidão sentidas, agudizadas por dúvidas quanto ao seu talento artístico, numa obra que é marcada por uma certa introspecção. Já Somerset Maugham definia-se não como um escritor mas como um contador de histórias. Parte delas tinham cunho auto-biográfico, outras eram-lhe relatadas por conhecidos e amigos. Com o realismo próprio da escrita inglesa Somerset retrata em O Fio da Navalha e a Servidão Humana os convívios, amizades, inspirações, traições, fome e desilusão de quem acreditava ter talento artístico (mesmo quando todos os demais diziam o contrário).
 Numa linha diferente e mais recentemente Abha Dawesan escreveu Aquele Verão em Paris. É uma história de amor entre um escritor consagrado e uma jovem aspirante ao mesmo ofício. No entanto, se a relação entre os dois é o tópico principal do livro, à medida que avançamos nele o embevecimento da escritora com as ruas de Paris e a sua história cultural é evidente. E da literatura podemos passar para outras artes, como a ópera (La bohéme de Puccini), o cinema (como esquecer We’ll always have Paris, de Casablanca ou o mais recente Meia-Noite em Paris, de Woody Allen) ou mesmo a televisão (em que cidade é que Mr. Big e Carrie Bradshaw se reencontraram no final de uma das temporadas de Sexo e a Cidade? Sim, Paris, que a protagonista estava a sorver deliciada como lenitivo para um romance já algo desencantado).
A vida está cheia de lugares comuns, é verdade. Mas Paris não é um deles. Entre o lugar real e o imaginário Paris tem todos os motivos para que lá vamos uma e outra vez.

                 (Este artigo é também publicado na revista Justiça com A.) 

Sem comentários:

Enviar um comentário